Sabrina Noivas 42 - Dangerous Deceiver

"Tudo entre a gente est destinado a ser muito... explosivo!"
Simon, mesmo acreditando que Martha continuava sendo uma garota de programa, no fazia a menor questo de esconder o desejo que sentia por ela. Martha, no entanto, sabia que Simon no queria nada srio. No passado, ele j a havia ferido profundamente e Martha aprendera que precisava se preservar. Simon era um homem perigosamente atraente, perigosamente sedutor... e por quem poderia se apaixonar perigosamente!

Digitalizao e Correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1996
Publio original: 1995  Gnero: Romance contemprneo
 Estado da Obra: Corrigida
CAPITULO I

	Ele era...
Martha Winters fez uma pausa. No, no podia descrever Simon Macquire apenas como um homem bonito, nem podia dizer a Jane algo que jamais ousara confidenciar a algum. Porm, ao fitar o rosto aflito da amiga e os olhos marejados de lgrimas por causa da briga que tivera com o namorado, Martha continuou a falar, mas num tom menos comprometedor:
	Bem, na realidade, ele era extremamente arrogante. Nunca gostamos muito um do outro e...  Martha mais uma vez interrompeu o que estava falando. Ergueu os ombros e viu que era quase impossvel explicar o que havia acontecido entre ela e Simon. Se a amiga no estivesse to abalada emocionalmente, com toda certeza estariam falando sobre outro assunto. 
Mas Jane precisava de ateno e parecia estar gostando daquela conversa, o que tornava a situao ainda pior.
Martha e Jane dividiam um apartamento h dois anos e, por isso, tinham se tornado muito prximas. Martha, no entanto, estava partindo para Londres na manh seguinte. Jane, sempre muito meiga e muito ingnua, havia pouco tinha dito a Martha que aquele era o pior momento para se afastarem. Seria muito difcil suportar sozinha a crise emocional pela qual passava.
	Voc no vai continuar, Martha?  Jane perguntou.
	Continuar?
	E.  Jane, com as mos, limpou as lgrimas que escorriam-lhe pelo rosto.  Pobrezinha...
	Pobrezinha?
	... Estou com pena de voc. Ele a abandonou, no abandonou?  Jane comeou a soluar.
	Amiga, no fique to triste. A vida, como dizia o poeta,  feita de encontros, embora existam muitos desencontros pela vida.
	Mas Simon abandonou voc, no?
	Jane, isso aconteceu h trs anos. E eu tenho l cara de pobrezinha?  Martha tentou brincar, para suavizar a situao.
	No, de jeito nenhum! Voc est muito bonita e tenho certeza de que far muito sucesso em Londres.
	Espero.
	Vai fazer, sim. Mas continuo preocupada com voc.
	Preocupada comigo? Por qu?
	Apesar de sua beleza, apesar de ser uma pessoa de uma personalidade e de um carter fora do comum, desde que moramos juntas voc est sozinha. Nunca a vi se interessando por homem algum.
	E isso  to ruim assim?
	Isso  pssimo, Martha. Voc j se olhou no espelho?
	Algumas vezes.  Martha no pde deixar de rir.
	E acha normal que uma mulher como voc esteja sozinha por tanto tempo?  Jane, apesar das lgrimas que ainda escorriam-lhe pelo rosto, agora falava com muita veemneia, de um maneira quase trgica.  De duas uma: ou voc ainda o ama loucamente, ou decidiu banir os homens de sua vida.
Martha hesitou. O que Jane havia acabado de falar no era de todo mentira.
	Eu lhe fiz uma pergunta, Martha.
	Fez?  Ela olhou com carinho para a amiga.
	Fiz. E, pelo jeito, voc no vai me responder.
	Tudo bem, tudo bem... Vou tentar explicar o que eu sinto no sei se o que senti por Simon foi amor.
	No sabe?
	No, no sei. Mas se foi amor, aquele  um tipo de sentimento que no quero voltar a sentir. E no bani os homens da minha vida. Apenas me tornei um pouco mais cautelosa. Isso no significa que deixei de acreditar que, um dia, o homem certo vai aparecer. E voc tambm tem que acreditar nisso.
	Vai ser difcil.  Jane assoou o nariz.  Muito difcil. Tinha certeza de que Stuart era o homem da minha vida!
Martha gostaria de dizer que, na opinio dela, Stuart no passava de um irresponsvel e que Jane estaria bem melhor sem um tipo como aquele. Mas no podia fazer isso. Se agisse dessa maneira sabia que s iria piorar a situao de Jane.
	Erga a cabea, amiga! A vida continua. Tenho certeza de que um dia encontrar algum que a far muito feliz.
Martha mal acabara de dizer a frase e Jane j estava soluando de novo.
	Eu pensei que ele fosse o homem da minha vida  a moa dizia entre um soluo e outro.
	A gente se engana, Jane...  Martha disse, como se estivesse se dirigindo a uma criana.
	Mas eu no queria ter me enganado... Eu no queria...
Martha percebeu que naquele momento no poderia fazer nada pela amiga. A nica atitude a tomar era permanecer calada e deixar que Jane chorasse todas as lgrimas que tinha acumulado no peito. Depois de alguns minutos, Jane voltou a assoar o nariz e pediu: - Me conte mais.
	Mais? Sobre o qu?
	Sobre Simon, o homem que no conseguiu esquecer.
	Ah... Simon... Bem, eu o conheci quando veio a negcios para c. A famlia dele tem uma vincola muito famosa na Frana.
	E como ele ? Simon  o tpico Don Juan francs?
	No  Martha deu uma risada , na verdade ele  escocs. Mas nem pelo sotaque d para perceber seu pas de origem.
	Vamos, continue. Quero saber mais sobre esse Simon Macquire.
	Bem, ele tem um jeito todo especial. Simon no  nada afetado, mas a gente logo percebe que ele pertence a um outro nvel social...  difcil explicar.
	Mas eu entendo voc, Martha.
	Entende?
	Entendo. Simon deve ter uma espcie de aura o envolvendo, no  isso?
	Exatamente. Voc acertou em cheio.
	Mas a aparncia dele, Martha, como ? Um escocs cuja famlia tem uma vincola na Frana deve ser muito interessante. Ele  ruivo ou moreno? E saia escocesa? Ele usa aquelas saias escocesas?
	No  Martha riu.  Pelo menos eu nunca o vi usando saia escocesa.
	E ele  ruivo, ou faz o gnero do moreno ameaador?
	Voc est mesmo interessada nele, no?
	Tambm... voc queria o qu? Um escocs que tem uma vincola na Frana e por quem a minha amiga se apaixonou...
	Simon no  ruivo, nem moreno.
	Ento ele  loiro. Loiro e ameaador.  Jane parecia ter se esquecido de Stuart e deu um leve sorriso.
	Simon tambm no  loiro. Ele tem os olhos e os cabelos castanhos,  alto, trinta e dois anos e...
	E  fantstico!  Jane completou-lhe a frase.
	Ele , sim, fantstico, mas no do jeito que voc est imaginando. Simon  aquele tipo de homem que tem um carisma e uma sensualidade indescritveis. E a maneira dele olhar, ento...  algo muito srio. Isso sem contar com as mos. As mos dele so lindas. Mas o que mais me impressionou nele foi a segurana.
	A segurana?
	. E a maneira como ele fala... "E o corpo, seus cari nhos...".  Martha no ousou completar a frase.
	Pelo que pude entender, Simon Macquire faz o gnero arrogante e gentil ao mesmo tempo. Alm,  claro, de ser o tipo de homem que a gente tem vontade de manter trancado em casa para que mais nenhuma mulher o veja.
	 mais ou menos isso  Martha concordou com a brincadeira da amiga.
	Como comeou e quanto durou o seu relacionamento com ele?  Jane quis saber.
	Como comeou?  Martha disse vagarosamente, enquanto tinha a sensao de que voltava no tempo. Imagens que fizera de tudo para esquecer ainda continuavam vvidas em sua mente. Podia lembrar-se exatamente como se sentira no dia em que tudo havia comeado. O desencanto com a vida, como estava sentindo-se amarga peio fato de os pais terem que deixar, sem absolutamente nada, sem nenhum recurso financeiro, a propriedade que tanto amavam. Nas imagens, Martha se via de repente numa cidade grande sem saber o que fazer. Ela no tinha qualificaes para poder arrumar um bom emprego, no tinha amigos. Depois de muito procurar o que fazer, foi contratada como promotora de um vinho francs por um hotel de Sidney. S aceitara o emprego porque precisava muito de dinheiro. E as roupas que se vira obrigada a usar... Havia sentido tanto desconforto com aquela saia preta justa e curta, a camiseta preta e dourada com o nome da companhia estampado no peito... E os sapatos de saltos altssimos? Neles, no gostava nem de pensar.
Martha continuava vendo o passado desfilar na sua frente. E foi impossvel no lembrar-se dos olhares devoradores dos homens. Um deles, careca e barrigudo, no havia se contentado apenas em olh-la: tivera a ousadia de toc-la intimamente. Indignada e morta de medo de perder o emprego, Martha havia pego uma rosa em um vaso e estendido ao homem, num gesto que supunha ser sedutor. No instante em que o careca foi pegar a rosa, Martha ergueu o p e, quando ia pisar com toda fora no p dele com o salto finssimo, um homem alto se materializou ao seu lado e a puxou para fora da sala.
Assustada, Martha se viu sendo quase empurrada para dentro de uma outra sala.
	Olhe aqui!  Ela fez um movimento brusco e conseguiu soltar o brao.
	Olhe aqui vocl  o homem disse com extrema frieza.
O que est esperando deste trabalho, hein? Est pensando que pode importunar e fazer propostas para os hspedes?
Eu...  S ento Martha o fitou. E deu de cara com um Par de olhos de um castanho escuro que no admitiam rplica.
	Voc o qu? Vamos, me diga: voc o qu?
O senhor no tem o direito de fazer isso comigo.
No me venha com conversa, com desculpas, mocinha. Eu vi muito bem o que estava acontecendo.  Ele a fitara de alto a baixo.
No  porque estou usando essas roupas ridculas que qualquer um pode fazer o que bem entender comigo. Mas quem  o senhor? O chefo aqui?
Ele no respondeu  pergunta. Disse apenas:
	Se quer encontrar clientes, senhorita, sugiro que v para um bordel.  Depois das palavras que ofenderam Martha profundamente, o estranho havia se afastado.
Durante os dias que se segjuiram, Martha se sentiu mortificada e muito envergonhada. As vezes, acordava de madrugado suando frio. Na mente a mesma imagem: a do homem careca e barrigudo, achando que podia fazer o que bem entendesse com uma mulher. Depois a imagem sempre era sobreposta pela daquele desconhecido que a tratara com tanta indelicadeza. Mas o pior ainda estava por vir.
Uma semana mais tarde, trabalhando numa recepo semelhante  outra, Martha servia champanhe e canaps aos convidados. Foi ento que ela viu o homem que tinha sugerido que ela fosse para um bordel. A raiva e a humilhao que havia guardado dentro do peito afloraram num repente. Martha se aproximou dele e ofereceu:
	Champanhe, senhor?
O homem a fitou e imediatamente a reconheceu. Enquanto pegava a taa de champanhe, ele a encarou e disse entre os dentes:
	Pelo jeito, voc no aceitou a minha sugesto. O estranho, ento, deu-lhe as costas.
Tanta grosseria a deixou muito irritada. Martha, fingindo que ia levar champanhe a um outro convidado, deu um esbarro no desconhecido e derrubou a bandeja com seis taas da bebida sobre o terno muito bem cortado. Em seguida, continuando a representao, disse:
	Me desculpe, senhor... Ah, como eu sou desajeitada.  Aps ter pego um guardanapo que trazia no brao, comeou a pass-lo levemente sobre o palet dele.  Deixe que eu enxugo o seu terno.
O estranho a segurou pelo pulso e impediu que continuasse.
	Pare com isso. Estamos num local pblico. Mas entendi a sua mensagem. Que tal um jantar antes?
	Antes? Antes de qu?  Martha o fitou, desentendida.
	Antes de irmos para a cama,  claro.  Ele falava com muita tranquilidade.  Isso vai nos dar a oportunidade de ficarmos sabendo os nossos nomes,
	 Eu...  Martha, chocada, ergueu a cabea. Se seus pais estivessem ali, logo notariam o brilho diferente que apareceu nos olhos azuis.  Certo. E s pegar o meu casaco e a minha bolsa.
, No seria melhor terminar o servio aqui antes de ns...
	No. Depois de ter derramado champanhe sobre um convidado, na certa serei despedida.
Ao contrrio do que Martha esperava, ele a levou para jantar num sofisticado restaurante italiano.
Para provocar um homem to insolente, Martha fez questo de tirar o casaco. Ao perceber que ele no havia gostado daquele gesto, no titubeou: abriu a bolsa e pegou o pente e o batom. Aps ter se penteado  mesa, passou o batom nos lbios.
	E ento?  ela perguntou com um falso sorriso nos lbios.  Qual  o seu nome?
	Simon.
	Muito prazer, Simon.Eu sou Martha. - Ela levantou-se e estendeu-lhe a mo. Sentia-se profundamente vingada. Inmeros fregueses do restaurante estavam olhando para os dois. Martha, ainda de p,continuou a provoc-lo: - Fico me perguntando se voc  1 alto funcionrio do hotel ou... Mas isso no tem a menor importncia para mim. Tanto faz quem voc .
	No quer se sentar... Martha?
	Claro que sim.  Ela sentou-se e deu uma cruzada de pernas bem lenta.
	Voc deveria estar num palco, sabia?
	Sabia. O palco  exatamente onde eu deveria estar. Mas tudo  uma questo de oportunidade, de ser notada. Mas agora eu fiquei curiosa: quem  voc? E o que faz?
Simon no respondeu a pergunta. Pegou o cardpio e fez o pedido ao garom.
Os dois jantaram no mais completo silncio. Martha, no entanto, continuava com gestos afetados e se comportando pessimamente  mesa.
No final do jantar, Simon pediu ao garom que lhe trouxesse a conta e dois cafs.
O caf tambm foi bebido em silncio. Cinco minutos mais tarde, ele perguntou:
	E ento? Quer um outro caf ou podemos ir para um lugar mais discreto?
 Um lugar mais discreto... - Martha deu uma gargalhada e se levantou. Ajeitou os longos cabelos loiros e jogou o casaco sobre os ombros.  E acha que apenas um jantarzinho nesse restaurante  suficiente para me levar para um lugar mais discreto? Ora, ora, Simon... No pensei que fosse to ingnuo...
Ele fez meno de levantar-se, mas desistiu.
 Quantos anos voc tem, Martha?
	Dezenove. Boa noite, Simon...  Ela o fitou dentro dos olhos e saiu triunfante do restaurante.
Mas aquela sensao de triunfo, de desforra, durou muito pouco. Assim que se viu na rua, vestiu o casaco, fechou a gola e foi para o ponto de nibus.
Nos dois dias que se seguiram, Martha levantou-se bem cedo e saiu  procura de emprego. E nada conseguiu. Era impossvel se empregar sem uma qualificao. Abatida, quase sem dinheiro, ela andava s a p.
No terceiro dia, Martha acordou s dez horas. Tinha chorado tanto durante a madrugada que s havia conseguido conciliar o sono s seis da manh. Aps o banho, colocou uma roupa bem discreta e, sem se alimentar, saiu mais uma vez para procurar emprego. E ficou muito surpresa ao abrir a porta da penso onde alugara um quarto: Simon a esperava na calada.
Assim que o viu, todo o abatimento que sentia desapareceu e ela se transformou. Algo dentro dela a impelia a desafiar aquele homem que passara a odiar.
	O que est fazendo aqui?  ela perguntou.  E como me encontrou?
	O que foi agora? Est querendo se fazer de ingnua?
	Como foi que me encontrou?  ela repetiu num tom de desafio.
	Foi fcil, muito fcil. Peguei um telefone e liguei para o responsvel por aquele evento onde a conheci. Pensou que seria muito difcil encontr-la? Por isso sentiu-se to segura de fazer aquela cena no restaurante?  Simon sorriu com sarcasmo.
	Como voc  esperto, Simon...  ela ironizou.  No pensei que fosse to inteligente! Mas  uma pena...
	Uma pena...
	Hoje no estou vestida da maneira que tanto aprecia, e nem meus cabelos esto to fantsticos.  Martha, por causa do banho, estava com a cabea molhada.  O que foi que resolveu me oferecer agora para eu ir para a cama com voc?
Martha sabia que estava indo longe demais com aquela histria, mas no era capaz de parar.
	Ainda no pensei no caso,, mas poderamos ir almoar e depois dar uma esticadinha at alguma praia.  Ele olhou para o cu.  O dia est muito bonito. Depois...
	Depois o qu?
	Vamos, Martha, o dia est belssimo. Por que no aproveit-lo? S estou querendo passear um pouco. V pe gar um maio.
	Tudo bem, eu vou pegar o maio.
Simon a levou para almoar num restaurante na beira da praia e Martha continuou representando a personagem leviana que ela estava muito longe de ser. Depois do caf, exigiu que Simon a deixasse no centro de Sidney. Confuso, ele fez o que Martha pediu.
Ela, ento, voltou a procurar emprego. E essa via crucis continuou nos dias que se seguiram.
Numa tarde, louca para chegar a casa por causa dos sapatos apertados, Martha estava sentindo-se no auge do desespero. No aguentava mais fazer entrevistas, no aguentava mais ouvir dizer que no servia para os trabalhos que procurava. Antes de ir para casa, mesmo com os ps doendo, passou num igreja e rezou muito. Mais aliviada, seguiu para a penso. E, de novo, Simon a aguardava na calada.
Ao v-lo, ela ergueu os ombros  procura da pouca auto-es-tima que lhe restara.
	Quer dizer que resolveu me procurar de novo...  Mais uma vez ela se via representando a mulher que no era.  Resolveu me convidar de novo para jantar?
	No.  Ele a abraou.  Resolvi saber que gosto tm os seus lbios. -
Martha no esperava por aquilo, mas no podia demonstrar a ele como estava apavorada. Jogou a cabea para trs e perguntou:
	 mesmo? S isso?
	Quero ver se ns dois somos... compatveis.
	E o que est esperando?  ela o desafiou.
No instante seguinte, Martha sentia-se como se estivesse caindo num precipcio. O beijo de Simon Macquire era devastador.
	E ento? Gostou?  ela perguntou quando ele se afastou um pouco.
	Muito  ele disse.  E voc?
	At que voc no beija mal  Martha respondeu com um certo desdm.  Agora preciso ir. Estou com os meus ps doendo e tenho mais o que fazer do que ficar beijando desconhecidos em frente  minha casa.
	Posso lhe dizer uma coisa?
	Se for rpido...
	 rpido, sim. S quero lhe dizer que voc  uma mulher muito bonita.

	Eu sei disso. Mesmo assim, obrigada. Voc tambm no  de se jogar fora. Mais alguma coisa?
	No, mais nada.  Ele enfiou a mo no bolso da cala, pegou a carteira, retirou uma nota de cem dlares e colocou-lhe no decote do vestido.  Isso  pagamento pelos servios prestados.
Martha, imediatamente, pegou a nota e picou. Em seguida, jogou os pedaos do dinheiro no rosto dele.
Martha s foi encontr-lo de novo num sbado, na hora do almoo.
	No entendo por que continua insistindo em aparecer de repente. O que voc quer desta vez?
	Poderamos ir ver as corridas. Voc gosta de cavalos?
	Gosto, mas no estou adequadamente vestida para ir a uma corrida.
Martha usava uma blusa branca de seda e uma saia florida.
	Voc fica melhor vestida do jeito que est. Mas prefiro voc despida.
	Voc nunca me viu nua.
	 verdade, mas tenho certeza de que a prefiro despida.
A conversa entre os dois continuou e, por fim, Martha aceitou acompanh-lo  corrida de cavalos. Depois deste sbado, Simon desapareceu por alguns dias e, de novo, voltou a procur-la. Martha sabia que estava brincando com fogo e, se no tomasse cuidado, acabaria se queimando. Mesmo assim ela insistia com a farsa. Sentia um grande prazer em provoc-lo, em se fazer passar por algum que no era.
Num incio de noite, ele voltou a procur-la.
	No quer dar uma chegadinha at South Head? Pode ramos ver a lua sobre o mar.
	No, no estou disposta a ver lua nenhuma. E tambm no estou a fim de que continue me procurando quando bem entender.
	J entendi... Voc deve ter um encontro com um dos seus amantes.  interessante, muito interessante...
	O que  interessante?
	Voc no parece ser sustentada por algum homem. Morando onde mora e...
	No, eu no sou sustentada por nenhum homem. Ainda!  Martha deu um profundo suspiro e se recomendou em pensamento que parasse com aquela histria. Mas ela foi incapaz de seguir as prprias recomendaes e continuou:  Acontece que no encontrei o tipo que possa me sustentar. Exceto voc,  claro. Mas sei que tenho na minha frente um homem muito sovina para sustentar uma amante. E no venha me dizer que est interessado apenas na minha bela alma.
	No, no vou dizer isso. Para ser franco, no tenho a menor ideia de que tipo de alma  a sua. Mas o seu corpo... Ah, este eu sei que  fantstico: pele acetinada, uma estrutura bem formada, dois olhos azuis maravilhosos... Me apaixonei por voc...
	Voc s pode estar brincando.
	Quer dizer que no acredita em mim?
	E eu deveria acreditar?  ela zombou.
	Mas  claro que sim.
	Garanto que esta paixo toda no o est deixando sem dormir  noite.
	Martha...
	Por que voc no vai embora, hem?
	Eu vou, mas antes preciso fazer uma coisa.  Simon se aproximou mais dela.  Apesar de no querer ser paga, tenho certeza de que gosta dos meus beijos.
	Voc  sempre assim to esperto?  ela ironizou.
	Nem sempre. Se esperteza fosse uma caracterstica constante da minha personalidade, no estaria aqui agora. Mas j que estou...
O que fez Martha corresponder ao beijo, ela mesma no saberia explicar. Nas outras vezes que os dois haviam sado, Simon tambm a beijara, mas ela nunca tinha correspondido.
De repente, ele se afastou.
	O que foi? No gostou do beijo?  ela o provocou.
	Muito.
	Ento por que voc parou?
	Acontece que no estou acostumado a pagar para que faam amor comigo.
Certo  ela disse, sentindo-se pssima.
	Voc s vai me dizer isso?  Simon perguntou de maneira seca.
	E o que mais queria que eu dissesse?
	Qualquer coisa, sei l!
	Tudo bem, eu vou dizer: foi um prazer conhec-lo, sr. Macquire. E agora, desaparea da minha vida!  Ela se afastou, em direo  porta da penso.
	Martha...
	O que foi?  Ela se virou para encar-lo.  Suma da minha vida. Sei exatamente o que est tentando me dizer.
	E o que estou tentando lhe dizer?
	Que no sou boa o suficiente para voc. E eu no me importo: no precisa fazer um drama por causa disso. A nica coisa que tem de fazer  sumir da minha vida!
Uma semana se passou sem que Simon a procurasse. E Martha tinha certeza de que isso jamais voltaria a acontecer.
Mas ela estava enganada. Uma noite, um pouco antes de sair para o trabalho, bateram  porta do quarto.
	J vou  ela gritou, enquanto acabava de abotoar o vestido negro e longo que precisava usar nas recepes de um outro hotel, o nico emprego que conseguira encontrar. Alm do vestido, as moas que participavam da recepo tambm usavam um avental branco cheio de babados. Mas o avental Martha deixava para colocar no hotel. Ela sabia que seria muito estranho sair de casa de vestido preto longo com um avental branco.
Ao abrir a porta, Martha deu de cara com Simon. A primeira coisa que lhe chamou a ateno foi o buque de rosas que ele segurava.
	Olhe aqui...  ela comeou a dizer, mas foi interrompida:
	S quero que me oua um pouco.
Martha hesitou. No estava gostando nada do tremor do corpo, nem do corao batendo disparado dentro do peito.
	Daqui a dez minutos tenho que sair para o trabalho.
	 tempo suficiente para ns conversarmos.
	Ento, entre. Vou fazer um caf.
	No, obrigado, eu no quero caf. Essas rosas so para voc.
Trmula, Martha pegou as rosas.
	Bem, Martha, vim aqui para me despedir.
	Despedir?  Ela abraou o buque de rosas.
	E. Estou voltando para casa hoje.
	Para casa?
	A meia-noite pego um avio para a Inglaterra.
	E faz tempo que est com a passagem marcada?
	Desde que vim para Sidney.
	Bem, como previa, voc no  nada diferente dos outros homens que conheci. Nem daquele imbecil careca e barrigudo!
	Sou, sou diferente, sim.
	Que nada.
	Nunca exigi nada de voc.
	Isso porque eu no deixei. Bem que voc tentou. Voc, como os outros, no passa de um desqualificado.
Por que o drama agora, Martha? Voc no  mulher
de fazer dramas. No gostou das rosas? O que queria que eu lhe trouxesse? Um bracelete de ouro? No, pensando melhor, acho que estava pensando em uma aliana de ouro na mo esquerda.
	Eu odeio voc, Simon Macquire!  ela disse enquanto dava-lhe um tapa no rosto.  Se a nica coisa que pode me oferecer so essas rosas,  melhor mesmo que suma da minha vida!  Martha jogou as rosas no cho.
Simon fechou a porta que permanecera aberta e a abraou.
	Me largue!
Mas Simon a beijou, no lhe dando a menor chance para se safar do abrao. Depois, ele a fitou dentro dos olhos e disse:
	Vim aqui para lhe pedir que parasse com a vida que leva, Martha. Vim aqui pra lhe dizer que esse tipo de vida no tem o menor futuro. Mas agora estou arrependido: deveria simplesmente ter desaparecido. Demorou, mas acabei percebendo que gosta do que faz. S espero que nenhum homem se envolva emocionalmente com voc. Se isso acontecer, ele vai maldizer o dia em que nasceu. E voc no merece rosas vermelhas, por isso no vou deix-las aqui.  Simon se abaixou, pegou o buque e foi embora.
Jane, que permanecera calada desde que Martha havia comeado a lhe contar a histria que vivera com Simon, no se conteve:
	Oh, Martha, que experincia mais terrvel, mais triste...
A voz da amiga interrompeu o fluxo de imagens do passado que Martha ainda tinha diante de si. E ela teve a sensao de que, da passagem do passado para o presente, tinha acabado de cair num imenso precipcio.
Ao olhar para a amiga, viu que Jane estava chorando e ficou muito triste com isso.
	Eu lhe contei o que se passou comigo para que voc se animasse um pouco, no para deix-la mais triste ainda.
	Mas  uma histria muito comovente.
	 comovente, mas acabou. Pertence a uma poca muito longnqua, a uma poca em que eu achava que podia fazer o que bem entendesse da minha vida. Agi como uma tola. Acho que aprendi muito com tudo o que me aconteceu.
	Mas voc no conseguiu esquec-lo, conseguiu?
	Isso agora no tem a menor importncia.
		Mas  claro que tem, amiga. Pelo que me contou, voc no deu a menor chance a Simon. Ele no tem a menor ideia de quem voc realmente .
	Se ele quisesse, se fosse um homem sensvel, teria visto quem realmente sou.
	Martha, voc agiu de uma maneira terrvel.
	Eu se"i. Acontece que foi ele quem provocou aquela reao em mim.
	Mas vocs se viram vrias vezes. Garanto que teve inmeras oportunidades de dizer ao Simon que tudo no passou de um mal-entendido.
	Tive. Tive, sim. Tive, mas no quis. S Deus sabe o quanto eu gostava daquele homem!
	Deveria ter lhe contado a verdade.
	E do que adiantaria?
	E voc ainda pergunta, Martha? Garanto que hoje a histria que voc teria para contar seria bem diferente.
	Simon nunca se importou comigo.
	Ser que no? Voc  bonita, espirituosa, inteligente...
	Jane, no seja assim to sonhadora. Garotas bonitas, espirituosas e inteligentes existem em qualquer lugar. Simon quer uma mulher sofisticada, que pertena ao mundo dele. E quem sou eu? Uma garota que nasceu e foi criada numa fazenda. Eu no passo de uma caipira, Jane.
	No, no concordo. Acho que est tendo uma imagem distorcida de voc mesma.
	Pode ser... Conheci Simon quando tinha acabado de chegar a Sidney.
	Est vendo? Voc podia ser inexperiente, mas agora as coisas mudaram.
	Inexperiente?  Martha riu.  Eu no sabia nada da vida.
	At que sabia, sim. Afinal, voc sobreviveu e est inteira.
As duas continuaram conversando at de madrugada e s dormiram duas horas.
Jane foi a primeira a acordar. Preparou o caf e levou uma xcara at o quarto da amiga.
	Acorde, Martha. J est na hora de ir para o aeroporto.
	J?  Ela sentou-se na cama.
	J. Mas d tempo de voc tomar um cafezinho.
Trs horas mais tarde, Martha se encontrava a bordo do avio que a levaria at Londres, com uma escala em Singapura. A viagem era longa e, alm de dormir, teria muito tempo para pensar.
Mas Martha no conseguia dormir. Excitada e apavorada por estar indo a Londres tentar a sorte, ela comeou a relembrar o que lhe acontecera depois que Simon havia partido.
Numa noite, durante uma recepo, um fotgrafo bem jovem lhe pediu permisso para fotograf-la. Martha, apesar de achar que era apenas uma ttica de aproximao do rapaz, concordou com as fotos; afinal, nada de anormal estava acontecendo. Quando a recepo terminou, o fotgrafo lhe agradeceu e pediu que lhe desse um telefone de contato.
Apreensiva, Martha lhe disse o telefone da penso. Um ms se passou e ela at j havia se esquecido das fotos. Um dia, a dona da penso lhe disse que Helen MacPherson havia lhe telefonado e pedido que entrasse em contato com ela. Martha, que no tinha a menor ideia de quem era Helen MacPherson, respondeu  chamada. Dois dias depois, j estava trabalhando para a figurinista mais famosa de Sidney.
"E isso aconteceu h trs anos... Helen me ajudou muito... Foi uma verdadeira me para mim."
Sabendo que Martha tinha muito vontade de fazer uma carreira na Europa, Helen havia entrado em contato com uma figurinista francesa radicada em Londres, Madame Ivete Min-ter. A francesa, ao saber do que se tratava, logo se disps a receber Martha. E era por causa desse encontro que ela estava indo para Londres.
"Bem, se no der certo...", pensou Martha, sentindo um frio percorrer-lhe a espinha. "Se no der certo, arranjo um outro tipo de trabalho em Londres, ou volto para Sidney..."
Dois dias depois de ter chegado  Inglaterra, Martha, muito tensa, entrava no ateli de Madame Ivete Minter.
"Eu deveria ter colocado uma roupa melhor. Imagine... jeans e camiseta no  roupa que se vista para uma entrevista desse tipo", ela se recriminava, enquanto olhava para os belos vestidos que estavam expostos.
 Pois no?
Martha se virou e viu que estava diante da figurinista.
	Oh, meu Deus!  Ivete arregalou os olhos.
"Eu sabia, sabia que deveria estar usando outra roupa! Quando? Quando vou deixar de ser to inconsequente?"
	Voc  tudo de que eu estava precisando!
	Madame, eu sou...
	Eu sei quem voc : Martha Winters, a modelo que veio de Sidney. Quero que comece a trabalhar comigo imediatamente.
	Eu...  Martha estava muito assustada com a reao da francesa.
	Como foi que Helen a deixou escapar? Voc tem altura, carisma, cabelos, pele, tudo perfeito!
	Mas vestida desse jeito...
	Eu tenho olho clnico, minha filha. Se est perfeita usando apenas jeans e camiseta, imagine como vai ficar quando usar um dos meus modelos! Voc vai assinar um contrato comigo de no mnimo um ano.
	Um ano?  Martha se espantou.
	. Um ano. No comeo vai desfilar aqui mesmo no meu ateli. Depois, bem, depois estou pretendendo fazer de voc uma mulher muito famosa. Voc j tem lugar para morar?
	No, estou hospedada numa...
	Ento voc vai morar comigo!
	No, eu no posso fazer isso.
	Claro que pode.
	Madame, a senhora j est fazendo muito por mim. Pode deixar, eu procuro um lugar para morar.
	De jeito nenhum! Imagine... Insisto que v morar comigo. Ter toda privacidade do mundo. Tenho um apartamento todo mobiliado na parte inferior da minha casa. A modelo que trabalhava aqui comigo foi para Nova York e desocupou o lugar. Voc pagar aluguel, no se preocupe. E ter privacidade suficiente para levar seus namorados at l sem que eu os veja.
	No estou pensando era namorar.
	No? Uma mulher to linda como voc? Impossvel...
	Acontece que no estou querendo saber de complicaes.
	Sei... Algum deve t-la ferido profundamente... Isso acontece, minha filha. Mas lhe garanto que de hoje em diante tudo vai mudar. Os homens que se cuidem!
Martha andava pelas ruas de Londres a caminho do ateli. No dia seguinte faria um ms que havia chegado. Agora, mais familiarizada com a cidade, j no estranhava tanto a capital da Inglaterra. Sempre que tinha uma folga, saa para passear e conhecer novos lugares.
	... realmente, Londres  muito bonita  ela disse baixinho ao entrar no ateli para mais um dia de trabalho.
No final do expediente, Madame Minter lhe disse:
	Tenho uma surpresa para voc.
	Uma surpresa?
	. Vou dar uma recepo na minha casa hoje e quero que comparea.
	Recepo? Impossvel. Eu detesto recepes.
	Mas nesta ter que comparecer.
Martha fitou a figurinista espantada.
	No disse que faria de voc uma mulher famosa? Ento... Para que isso acontea, precisa comparecer s minhas festas. Voc tem que se fazer conhecer, querida. Isso  muito importante para a sua carreira.
	Me desculpe, mas no vai dar para eu ir.
	Vai dar, sim. Vai dar! Se s oito horas no tiver subido, deso at o seu apartamento e a arrasto at a minha casa.
	Mas...
	No adianta, Martha. Voc vai a essa recepo!
Alguns minutos antes das oito, vestindo um conjunto azul-claro de saia e blusa, sapatos de salto mdio e uma leve ma-quiagem, Martha tocava a campainha da casa de Ivete Minter.
	Voc est perfeita, minha querida. Discreta como sempre. Entre.  Ivete deu um largo sorriso.  Algumas pessoas j chegaram. Quero que as conhea.
Martha acompanhou Ivete at a ampla sala onde estavam os convidados.
	No precisa ficar to nervosa, voc est maravilhosa.  Ivete olhou para o lado.  Venha, quero lhe apresentar o meu sobrinho.
Aturdida, sentindo-se profundamente insegura, Martha no conseguia enxergar ningum.
	Querida, este  Simon Macquire.
"Simon! Meu Deus!" Martha teve medo de desmaiar ali, diante de todos.
Ivete continuou as apresentaes.
	E essa, querido,  a minha protegida: Martha Winters.

CAPITULO II

Estupefata, Martha olhava para Simon. Aquilo /era coincidncia demais.
	Bem, vou deix-los, esto chegando outros convidados.
 Ivete se afastou.
	Ora, ora, ora...  Simon sorria.  Quer dizer, ento, que nos encontramos outra vez! Gostaria de saber se isso  obra do destino ou uma simples coincidncia.
Martha nada respondeu. Profundamente constrangida, foi at um sof e comeou a conversar com uma cliente que conhecera no ateli. Quando o garom lhe ofereceu champanhe, ela no titubeou: pegou uma taa. Cinco minutos mais tarde, estava com outra taa nas mos.
Apesar de fazer de tudo para se mostrar descontrada, Martha sentia-se muito mal por estar sendo observada por Simon o tempo todo.
Ivete foi procur-la e a levou para conhecer outros convidados. Martha tentava conversar com todos mas, em um dado momento, vendo que Simon se distrara, voltou discretamente para o apartamento e trancou a porta.
	Por essa eu no esperava!  ela disse, e retirou os brincos e o bracelete que usava. Aps beber um copo d'gua, colocou as jias sobre a mesa da cozinha. No instante em que comeava a desabotoar o casaco e se dirigia para o quarto, ouviu um barulho na porta dos fundos.
Trmula, Martha voltou para a cozinha.
	Como voc ousou entrar em minha casa?  ela gritou com raiva.  Isso no se faz, sua atitude  intolervel!
Simon ergueu uma chave e disse:
	Ivete tem uma chave mestra daqui e me emprestou. Ela percebeu que temos alguns velhos assuntos para resolver.
	Isso no tem cabimento! Voc... Voc invadiu a minha casa!  Martha respirou profundamente. Precisava se acalmar. Precisava se acalmar e se comportar de maneira fria.  Simon, no temos riada para tratarmos um com o outro.
	Isso  o que voc pensa.
	Acha que se eu soubesse que Ivete Minter  sua tia eu estaria trabalhando para ela? De jeito nenhum!
	Voc mudou muito, pelo menos na aparncia.
	E, para voc, aparncia  tudo o que conta, no ?
	Nem sempre, nem sempre...  Ele sorriu com um certo escrnio e pegou o bracelete que estava sobre a mesa.  Pelo jeito voc tambm progrediu. Como conseguiu as jias?
Martha teve vontade de voar no pescoo dele, mas se conteve. Havia trabalhado muito para comprar aquelas jias. Fitando-o dentro dos olhos, perguntou:
	Como acha que eu as consegui?
	No tenho certeza, mas imagino.
	Pois acertou em cheio.
	Quer dizer, ento, que arranjou um cliente  altura de suas expectativas?
	No s um, mas vrios.
	E eu que cheguei a pensar que tinha me enganado a seu respeito.
	 mesmo? Quanta ingenuidade... Acho que naquela poca eu era meio inexperiente. Por isso que eu me comportava daquela maneira to rude... Mas agora eu sou uma mulher bastante experiente. Gostaria de uma demonstrao, Simon Macquire?
	No, muito obrigado, posso muito bem passar sem isso.
"No, eu no posso estar fazendo isso de novo. Por que teimo em continuar representando diante de Simon? Isso no  justo, no  justo para comigol Mas  mais forte do que eu: muito mais forte!"
	E minha tia sabe como  que voc ganhava a vida?
	No, no sabe. E voc usou o verbo no tempo exato: ganhava. Eu mudei de ramo e por isso estou aqui. O passado  uma pgina virada. Ser que me entende?
	Voc foi muito clara. Agora tem uma vida nova.
	Exatamente.
	Bem.  Ele mordeu o lbio inferior.  Espero que continue assim. Espero que consiga viver sem.
	No entendi o que voc quis dizer.
	Espero que voc consiga viver sem sexo.
	Saia. Sai j daqui!  ela disse entre os dentes.
 No precisa se alterar. J estou saindo. E... boa sorte, Martha Winters.
No dia seguinte, um domingo, por volta das nove da manh, Martha foi acordada pela campainha. Ela vestiu um roupo e foi atender  porta.
	Madame Ivete...
 Quantas vezes lhe pedi para me tratar apenas por Ivete.  A figurinista vestia uma tnica de seda estampada.  Ser que  pedir muito?
	No, mas... Entre, por favor.
	Sempre gostei desse apartamento.
	Sente-se, mada... Ivete.
	Obrigada.
	Sei que no deveria ter sado da festa daquele jeito. Sequiser descontar do meu ordenado...
	Descontar do seu ordenado? O qu?
	Ficar naquela festa fazia parte das minhas obrigaes profissionais, no fazia?
	Martha, que tal conversarmos a esse respeito aps uma xcara de caf?
	Claro.  Martha foi para a cozinha. Enquanto a gua fervia, ela correu para o quarto e vestiu um jeans surrado e uma camiseta. Ao voltar para a sala com o caf, Ivete comentou:
	Quanta diferena!  inacreditvel.
	Diferena? Sobre o que exatamente voc est falando mada... Ivete?
	Sobre voc,  claro. Ontem  noite sua elegncia era insupervel: todos admiraram muito seu charme, seu carisma. De repente... voc se transforma numa adolescente.
	Voc est se referindo  roupa que estou usando?
	Estou.
Martha serviu o caf a Ivete.
	Obrigada, querida. Mas voc vai ficar a de p?
	Claro que no.  Ela sentou-se em uma poltrona, em frente  francesa.
	Mas que histria  essa de descontar a sua sada da festa do ordenado?
	Eu... eu deveria ter ficado. Afinal, como  que voc pode fazer de mim uma pessoa famosa se me comporto de maneira to anti-social?
	Sabe que nunca tinha reparado nesta sua caracterstica? Sei que voc  tmida, mas fugir de repente de uma festa...
	Me desculpe. Isso no vai acontecer de novo.
	Espero que no.  Ivete provou o caf.  Est delicioso. Mas at que a sua sada da festa no foi assim to ruim, sabia?
	No entendi.
	Bem, desaparecendo de repente, voc deixou uma aura de mistrio pairando no ar. E isso ser muito bom para sua imagem. O pblico sempre gosta de mistrio, muito mistrio...E sua atitude com Simon foi inesperada.
	Inesperada?  Martha sentiu uma pontada no estmago.
	. Inesperada. Nunca vi nenhuma mulher evitar Simon. E voc pouco conversou com ele.
	Sinto muito, ele  seu sobrinho e eu deveria ter...
	Continue, Martha, continue.  Ivete sorriu.  Deveria o qu?
	Bem, acho que Simon dever ter contado que... No, eu deveria ter dado mais ateno a ele... E tambm aos outros convidados.  Martha sabia que estava sendo confusa. Mesmo assim, no conseguia concatenar os pensamentos.
	Simon no me contou absolutamente nada.  Ivete tomou mais um gole de caf.  Bem, para ser honesta, devo lhe dizer que meu sobrinho me contou, sim, que vocs se conheceram h trs anos na Austrlia. Depois no disse mais nada, o que foi realmente frustrante para mim. Mas deu para perceber que algo aconteceu entre vocs dois. Existe um clima, uma energia diferente... Sandra Grant  que no ia gostar disso.
	Sandra Grant?
	 Sandra Grant  Ivete respondeu aps outro gole de caf.
	Quem  ela?
	A noiva de Simon. Para lhe dizer a verdade, o noivado ainda no  oficial. Voc no sabia?
	No sei quase nada a respeito de Simon.
	Se  assim, vou lhe falar um pouco a respeito do meu sobrinho. Ele  filho do irmo do meu falecido marido. Temos o mesmo sobrenome, mas para os negcios o meu nome de solteira soa muito melhor. Voc est espantada por eu ter me casado com um escocs?
	No, eu...
	Isso sempre aconteceu. Os Macquire sempre se casam com francesas. Portanto, a famlia  metade escocesa e metade francesa. E tem uma vincola...
	Eu sei sobre a vincola. Conheci Simon exatamente numa recepo onde um vinho estava sendo apresentado ao pblico.
	Simon  um excelente homem de negcios. Se no fosse por ele, hoje a famlia estaria arruinada. Se quer saber, eu tambm. Se no fosse pelos conselhos dele, hoje eu no teria o que tenho. Sabe, Martha, Simon...
	Por favor, Ivete, vamos mudar de assunto.
	Claro...  A francesa a fitou meio desconcertada.  Ento foi ele.
	Ele?
	O homem que a feriu.  Ivete, que falava com muita delicadeza, mudou de tom.  No negue. No me trate como uma tola.
	Eu no estou tratando voc como uma tola.
	Mas ia tratar, ia negar que foi Simon o causador de tanta tristeza.
	Mas Simon  seu sobrinho! Oh, meu Deus, eu no merecia isso...  Martha comeou a chorar. De repente, via seus sonhos desmoronarem. E tudo por causa de Simon Macquire.
	E da que ele  meu sobrinho?
	E da?  Martha olhou desentendida para Ivete.
	Sim, e da?  a francesa repetiu.  Qual  o problema?
	Voc no entendeu, Ivete: eu odeio Simon Macquire. E ele me despreza. Voc... voc, pelo que pude ver, o admira muito.
	Admiro, sim.
	Ento...
	Est querendo dizer que vou tomar partido de Simon?
	E no vai?  Martha enxugou as lgrimas que escorriam-lhe pelo rosto.
Ivete Minter colocou a xcara sobre a mesinha do telefone e se levantou.
	Voc no me conhece, Martha Winters. Voc no me conhece. No sou apenas uma excelente figurinista, sou tambm uma excelente juza. Sei muito bem julgar o carter de uma pessoa. Alm de tudo, sou francesa e conheo muito bem os representantes do sexo masculino. Jamais sonharia em dizer: Esse homem  um poo de virtude. Jamais!
	Mas...
	Ainda no terminei. Primeiro eu diria: Simon  um homem e, como todos os homens, pode ser um grande cafajeste quando surgir a oportunidade! Pronto, agora eu acabei.  Ivete voltou a se sentar.
	Ivete, como pode dizer uma coisa dessas?
	Porque  a mais pura verdade, minha querida.
	Mas voc no me conhece direito.
	Isso  verdade  Ivete concordou.  Mas gosto de voc. Portanto, se quiser, pode continuar odiando Simon. S quero que saiba de uma coisa: voc no me engana. E a partir de agora no direi mais nenhuma palavra sobre esse assunto.
"Nem eu", pensou Martha.
No dia seguinte, Martha chegou ao ateli bem cedo. Como havia prometido, Ivete Minter no tocou no nome do sobrinho. E isso aconteceu nos dias que se seguiram.
Na quinta-feira, ao sair do ateli, Martha resolveu passar num pequeno restaurante para comer uma salada. Quando j se sentara a uma mesa, deu uma olhada para as pessoas que estavam no local. E Simon Macquire era uma delas. Ele estava com um grupo de pessoas.
Martha fez o pedido ao garom e viu que uma morena se aproximou da mesa de Simon, beijou-o no rosto e depois sentou-se ao lado dele.
"Ser que essa  Sandra Grant?", ela se perguntou em pensamento. "Se for, s posso dizer que Simon tem muito bom gosto. Ela  linda."
Triste, Martha comeu a salada e foi embora. 
A outra vez que o encontrou foi no sbado  tarde. Insatisfeita e sentindo-se muito solitria, Martha resolveu ir visitar um shopping. Depois de comprar uma blusa e um par de sapatos, ficou mais de uma hora dentro de uma livraria, de onde saiu com trs romances que h muito estava pretendendo reler.
Querendo aproveitar a beleza daquele final de tarde, Martha foi a p para casa. No caminho, passou em frente a uma igreja no exato momento em que um noiva atirava o buque aos convidados. Martha parou para ver a cena e se emocionou muito.
	Jamais diria que Martha Winters se emociona diante de um casamento.
	Voc!  S ento ela percebeu que Simon estava ao seu lado.
	Surpresa?
	Bastante.
	Eu tambm. Ele sorriu.
	O que voc est fazendo por aqui?  Martha, desconfiada, quis saber.
	Eu moro neste bairro. Sa para andar um pouco. E voc?
	Fui ao shopping fazer umas comprinhas.
	Pelo jeito foram comprinhas mesmo.  Ele olhou para a sacola que Martha segurava.  Ah... voc tambm esteve na Azul e Branco.
	Fui comprar alguns livros.
	Estou vendo. Acho a Azul e Branco uma excelente livraria. Vi voc no restaurante na quinta-feira.
	Voc me viu?  ela perguntou, espantada.
	Vi. Por que o espanto? Pensou que fosse invisvel?
	Mas voc estava de costas.
	Tenho uma sensibilidade muito apurada para o que diz respeito a voc.
	Mesmo depois de trs anos? No acredito  ela disse de maneira seca.  Bem, se me der licena, preciso ir andando.
	Acompanho voc at a sua casa. A tarde est muito bonita ele ofereceu, e a olhou dos ps  cabea.
	O que foi?
	Voc me surpreende.
	Por qu?
	Voc fica incrivelmente inocente e virginal com essa cala pescador amarela e com essa camiseta florida. Mas eu me pergunto: que tipo de cena ela far para acabar com as minhas iluses?
	Quer dizer que eu o surpreendo?
	Muito, Martha Winters.
	Ainda bem. Sabia que os homens que no se surpreendem com nada so os mais enfadonhos que existem sobre a face da Terra?
Simon deu uma risada.
	Agora eu vou indo. Tenha um bom resto de sbado, Simon Macquire.
	Que tal tomarmos um drinque?
	No.
	Um suco, ento?
	No. Eu vou para casa.
	Martha, voc est sendo muito radical.
	Eu sou radical. No vou com voc at a sua casa. Desista!
	Mas quem disse que eu quero lev-la at a minha casa? Estava pensando em ir tomar alguma coisa ali naquele bar.  Ele ergueu o brao e indicou o local.
Simon, sentado junto com Martha na mesa do bar, disse depois de v-la devorar um hambrguer:
	Pensei que as modelos s comessem salada.
	Eu estava com muita fome.
	Voc no almoou?
	No. S tomei uma xcara de leite desnatado pela manh.
	S isso? E ficou sem comer nada at agora?
	Fiquei.
	Mas ningum pode ficar tanto tempo com apenas uma xcara de leite no estmago.
	Eu cuido muito bem da minha alimentao.
	No parece.
	Hoje eu sa um pouco do meu ritmo.
	Um pouco? Eu diria que saiu muito. Ou ser que est mentindo? No posso acreditar que voc seja escrava dos eternos regimes aos quais as modelos se submetem.
	No, eu como muito bem.
	Se voc est dizendo... Aceita outro hambrguer?
	No, obrigada. Estou satisfeita.
	Talvez mais suco...
	Pode acreditar, Simon, estou satisfeita.
	E essa sua satisfao  geral?  ele a provocou.
	Como assim?
	Quero saber se voc est satisfeita com Londres, com o seu novo trabalho...
	Bastante. Sua tia tem me ajudado muito.
	Ela gosta muito de voc. Outro dia Ivete me disse: Martha Winters  uma vencedora!
	Voc esteve falando com ela a meu respeito?  Martha se colocou na defensiva.
	Pode ficar tranquila, comigo o seu segredo estar a salvo.
	E por que vocs dois estavam falando sobre mim?
	Ivete estava me mostrando umas fotografias dos modelos da prxima coleo.
	E foi s isso que ela lhe disse, que eu sou uma vencedora?
	Foi, sim, por qu?
	Por nada.  Martha se levantou.  Bem, agora eu preciso ir. Obrigada pelo lanche.
	Antes de sair, Martha, me diga uma coisa: j fez muitos amigos em Londres?
	No, estou treinando a minha inocncia  ela ironizou.
	Quer dizer que est pretendendo ir para casa e ficar vendo televiso num sbado  noite? Quanto desperdcio de tempo...
- Desperdcio de tempo  ficar aqui conversando com voc. Passe muito bem, Simon Macquire!
Na metade da semana seguinte, no ateli, durante um pequeno intervalo para um caf, Ivete pegou os jornais da semana.
	Preciso ler as colunas sociais destes jornais. Esta semana no tive tempo nem de pensar.  Instantes depois, a figurinista caa na risada.
	O que foi?  Martha quis saber.  Esto falando de algum conhecido seu?
	Sim. De voc.
	De mim?  Martha perguntou, espantadssima.
	Quer dizer que no sbado voc e o meu sobrinho tomaram lanche juntos no Smith's?
	Ns nos encontramos na rua.
	Quanta coincidncia...  Ivete continuou lendo a notcia. Dizem aqui que a acompanhante de Simon  a misteriosa garota que madame Ivete Minter est preparando para brilhar no mundo da moda.
	E o que mais eles esto dizendo?
	Que voc  linda, elegante e algumas outras coisas bastante bvias. Viu s? Voc est comeando a fazer sucesso.
	Eu no quero esse tipo de sucesso.
	Como no? Sucesso  sucesso, minha filha. Hoje lhe deram essa pequena nota. Vai ver s, daqui a pouco voc vai ter muitos milionrios atrs de pelo menos um sorriso seu. E tenho certeza de que vai acabar se casando com um deles.
	No estou esperando por nenhum milionrio, Ivete.
	Mas  claro que est: todas ns estamos! Sabe o que eu fazia quando conheci o meu marido?  Ivete no esperou pela resposta.  Eu era tecel. Passava o dia inteirinho em frente a uma mquina para ganhar uma misria. E hoje, veja no que me transformei! Sou famosa, tenho uma casa fantstica e muito dinheiro. Isso tudo porque soube aproveitar as oportunidades que surgiram. Fique atenta, garota, e no deixe uma boa oportunidade passar.  exatamente o que Sandra Grant est fazendo.
	Como ela ?  Para sua prpria surpresa, Martha se ouviu perguntando.
	Ela tem uma firma de contabilidade e, muito inteligente,  a tpica mulher de negcios. Sandra  uma morena fantstica. Tem os olhos num tom de verde que eu nunca vi.
"Era ela! Agora tenho certeza de que a moa que chegou ao restaurante era Sandra Grant", Martha concluiu em pensamento.
	E ento? Voc est preparada?
	Preparada para qu?
	Para brilhar, minha filha, para fazer sucesso!
Depois de ter visto aquela nota no jornal, Ivete no perdeu tempo: organizou outras festas, comeou a levar Martha s estreias de teatro, corridas de cavalo e a todos os lugares onde poderiam conseguir publicidade.
E quando a. coleo estreou, Martha virou a coqueluche de Londres. As revistas, os jornais e a televiso, sempre arranjavam uma maneira de falarem na fantstica modelo australiana que estava arrebatando o corao do pblico ingls.
Para Martha, tudo aquilo era uma grande novidade e logo viu que conviver com a fama no era nada fcil. Por inmeras vezes suas palavras eram distorcidas e ela via impresso aquilo que nunca dissera. O que mais a mdia especulava era sobre a sua vida sentimental. E Martha continuava absolutamente sozinha.
Um dia Ivete a chamou e quis saber:
	Que histria  essa?
	O que andaram escrevendo agora?  Ela deu um profundo suspiro.
	Oua: "A famosa modelo australiana, Martha Winters, declarou que, se pudesse, moraria sobre uma motocicleta!"
	O qu?
	 isso que voc ouviu.
	Mas eu nunca disse isso, Ivete. Eu tenho medo de motocicleta. No consigo entender como as pessoas podem ficar o tempo todo se incomodando com tudo o que eu digo. Isso est me cansando, sabia?
	 o preo da fama, querida. Pensa que fazer sucesso  fcil?
Mas o que aconteceu para que eles acabassem escrevendo isso?
	Deve ser por causa daquele piquenique a que voc me obrigou a ir na semana passada.
	Eu no a obriguei a ir quele piquenique: eu apenas sugeri. 
	Certo.  Martha concordou apenas para no discutir com Ivete.  Pois ento... Quando eu estava sendo entrevistada, passou uma Harley Davidson. A o reprter me perguntou se eu gostava de motocicleta. Eu disse que no, que era um veculo muito perigoso.
	E depois? O que aconteceu?
	Acho que mais nada. Mais tarde fui apresentada ao dono da moto.
	E quem era ele?
	Ricky.
	Ricky? S Ricky? Qual era o sobrenome desse tal de Ricky?
	Ricky Asquith-Font.
	Ricky Asquith-Font? Meu Deus... E ele?
	Ricky pediu para sair comigo e eu no quis.
	No  possvel! Voc no quis sair com o herdeiro mais cobiado de toda a Inglaterra?
	Ele  novo demais, Ivete.
	Nada disso! Ele tem a sua idade.
	No foi voc quem um dia me disse que os homens s trazem complicaes?
	Eu disse, eu disse. Mas voc j est levando isso longe demais. Tem que sair, arranjar um namorado.
	Eu no quero namorar, Ivete. Ser que no entende?
: No, eu no entendo.
	No contrato que fiz com voc no existe nenhuma clusula que me obrigue a namorar.
	Mas voc deveria pensar no seu futuro.
	Trabalhar  uma maneira de se pensar no futuro. Ou no?
	Trabalho no  tudo, Martha. Entenda isso de uma vez por todas.
	Ivete, voc sabe que sigo cada uma de suas instrues. Voc me prometeu e realmente me tornou uma mulher famosa. E sou muito grata a voc por isso. Mas eu no quero, entenda: eu no quero me relacionar com ningum. Esse assunto s compete a mim!
	Simon.
	O qu? .
	Tenho certeza de que Simon  responsvel por esse seu comportamento.
	Seu sobrinho no tem nada a ver com isso.
	Mas  claro que tem. Martha, por favor, esquea o Simon. Ento voc ver: sem dvida nenhuma sua vida vai mudar. Voc se tornar uma pessoa mais alegre e muito mais feliz.
	No sei por que se preocupa tanto, Ivete.
-- Me preocupo porque gosto de voc e quero v-la feliz. Se no sou eu a encontrar coisas para fazer, voc  capaz de passar todas as noites trancada em casa, lendo.
	E isso  ruim?
	Eu acho pssimo.
	Ivete, me diga uma coisa: eu funciono como modelo?
	E voc ainda pergunta? Mas  claro que sim. Dobrei o meu faturamento depois que voc comeou a trabalhar comigo.
	Ento voc no tem do que se queixar: estou cumprindo a minha parte do contrato. Agora eu vou embora.
	No quer uma carona? Estou indo para casa.
	No, prefiro ir a p.
	Voc est brava comigo?
	No, Ivete, j me acostumei com os seus sermes.
	Antes de sair voc me promete uma coisa?
	O qu?  Martha perguntou, preocupada.
	Promete que vai usar aquele vestido vermelho na prxima recepo a que ns formos?
	Qual vestido?
	Aquele que eu lhe mostrei ontem.
	Tudo bem: eu prometo. Agora estou indo embora. Tchau!

CAPITULO III

Trabalho. Muito trabalho. Essa era a vida de Martha em Londres. A noite ela ficava na companhia dos livros, que desde muito cedo na vida eram -seus grandes companheiros. Para sua grande alegria, s vezes recebia cartas de Jane, que agora encontrara um outro namorado e parecia muito feliz. vida de contato, Martha respondia  todas as cartas da amiga.
Naquela noite, Martha estava se sentindo particularmente mal dentro do vestido vermelho que havia prometido a Ivete que usaria. Por ela, no teria vindo a essa recepo. Estava cansada de sorrir, quando no tinha vontade. Cansada de ver a mdia sempre distorcendo o que dizia. Mas as recepes faziam parte de sua profisso e ela sabia que precisava suport-las.
"Mesmo assim deveria ter ficado em casa hoje. No suporto mais essas festas", Martha pensava enquanto esperava que Ivete e ela fossem anunciadas pelo mordomo a Sir Oswald Henry, um senhor grisalho, com cerca de sessenta anos. Martha, por duas vezes, j o vira saindo de manhzinha da casa da figurinista em um carro preto.
Ivete, sempre muito falante, naquele momento estava calada e, representando muito bem o seu papel, aguardava.
"Meu Deus, tudo  to falso... No mnimo eu deveria ter vindo a essa recepo acompanhada. Ficaria bem mais fcil me livrar do assdio dos homens. Mas at hoje no encontrei um amigo, algum em quem eu confie de verdade."
 Madame Minter e srta. Martha Winters  o mordomo finalmente as anunciou.
As pessoas que j se encontravam na recepo assistiam  chegada dos outros convidados. Quando o nome de Martha foi pronunciado, ouviu-se um burburinho pelo salo.
Martha aprumou o corpo e desceu a escadaria.
"Essa minha entrada vale mais que mil desfiles. Mas tambm o vestido  lindo. Acho que  o mais bonito que usei at hoje", ela pensava enquanto adentrava a festa.
Quando j estavam vendo outros convidados serem introduzidos, Ivete murmurou-lhe:
	Hoje voc foi consagrada. Aqui temos a nata da sociedade londrina.
	Mas tambm, com um vestido desse...
	No seja modesta, querida. Modstia no fica bem com a sua profisso. Seu corpo, o seu charme e a sua rara beleza valorizam muito qualquer criao minha. Acho at que est correndo srios riscos.
	Riscos?
	Os homens ainda no pararam de olhar para voc. Mas quero lhe pedir um favor.
	Qual favor?
	Tome muito cuidado com esse vestido. No quero v-lo rasgado.
Martha riu do pedido de Ivete e sentiu-se mais descontrada.
	Voc viu quem est l naquele canto,  esquerda?
	Quem?
	O seu heri motociclista.
Martha olhou para o canto que Ivete lhe indicara e viu Ricky Asquith-Font.
	E ele est vindo para c, querida.
Enquanto Ricky atravessava o salo, Martha pde observ-lo bem e chegou  concluso que o rapaz ficava melhor em trajes esportivos. Usando aquele smoking, Ricky mais parecia um peixe fora d'gua.
Assim que o rapaz chegou, Ivete o cumprimentou e, antes de afastar-se, sussurrou junto ao ouvido de Martha:
	Relaxe e... divirta-se.
E foi exatamente o que Martha fez. Depois de um bom tempo, Ivete se aproximou dela e voltou a sussurrar-lhe junto ao ouvido:
	Viu s? Para se divertir  s relaxar um pouco.
A figurinista foi de novo conversar com um grupo de amigos e deixou Martha com Ricky. At aquele momento ela havia danado todas as msicas. O rapaz, apesar de atordoado por ser o alvo das atenes, desdobrava-se para agrad-la.
	Quer sentar-se um pouco?  Ricky perguntou, e indicou-lhe uma mesa.
	Quero, sim, mas antes vou retocar a minha maquiagem.
	Certo, eu a espero na mesa.
Na toalete, Martha olhou-se ao espelho. Realmente estava muito bem com aquela roupa.
"Mas tudo no passa de encenao. Isso tudo me faz lembrar as recepes que tinha de frequentar l em Sidney. Meu Deus, quantas e quantas vezes eu fui humilhada! E agora eu sou a estrela da festa. Isso  uma grande ironia. Mas para manter o meu sucesso  exatamente isso que eu preciso continuar fazendo: sorrir, danar, conversar... Esse mundo aristocrtico  muito falso e vazio. Eu queria vida de verdade, pessoas de verdade, eu queria...". Martha deu um profundo suspiro. No podia continuar com aqueles pensamentos. Se continuasse, na certa cairia numa profunda tristeza. "E no d mais para ficar deprimida. J chega o que me aconteceu na semana passada. A depresso que tive foi terrvel. No posso deixar que isso acontea comigo de novo. Imagine... fiquei trs dias sem comer..."
Martha abriu a bolsa, pegou o estojo de maquiagem. Depois de cinco minutos sentia-se pronta para continuar enfrentando aquela festa.
Antes de abrir a porta da toalete ela disse baixinho:
	Agora  s colocar um sorriso falso nos lbios.
Mas o falso sorriso durou apenas alguns segundos. Assim que saiu da toalete, algum interceptou-lhe a passagem:
	No acha que ele  jovem demais para voc?
"Simon! Como ele est lindo. Parece que foi feito para usar smoking!"
	No vai responder  pergunta que eu lhe fiz?
Martha deu um profundo suspiro e disse:
	Est se referindo a Ricky?
	E a quem mais eu poderia estar me referindo?
	Sabe, Simon Macquire, eu acho que voc, sim,  muito velho para mim. Agora, daria para fazer o favor de me deixar passar?
	Antes voc vai danar comigo.
	Mas eu no quero danar com voc.
	Ah... voc vai danar, sim. E vai fingir que est muito feliz danando comigo.  Ele a segurou pelo brao e comeou a encaminh-la at a pista.
	Me solte  ela pediu entre os dentes, mas manteve o sorriso nos lbios.
	No faa nenhuma cena, caso contrrio amanh todos os jornais estaro noticiando.
	Voc tem muito mais a perder do que eu, Simon Macquire.
	No sei no, no sei no...
Assim que chegaram  pista, Simon a abraou e os dois comearam a danar.
	Voc est muito tensa.
	Quem est tenso  voc.
	Eu? De jeito nenhum. Estou me sentindo muito  vontade.
Voc ainda no tinha me visto?
	No, no tinha. Ou melhor: nem me preocupei em saber se voc estava ou no nesta festa.
	E, realmente voc no poderia tr me visto. Cheguei tarde.
	Com Sandra Grant?  Martha logo se arrependeu por ter feito a pergunta.
	No, eu no vim com Sandra. O que sabe a respeito dela?
	Nada de especial, sei apenas o que dizem as colunas sociais.
	As colunas sociais...  ele ironizou.  No sabia que danava to bem.
	Obrigada.
	No tem nada que agradecer.  raro encontrar uma mulher que dance to bem assim.
Os dois ficaram em silncio. Martha estava cada vez mais incomodada com os sentimentos que Simon lhe despertava. Era muito difcil t-lo ali to perto, com aquelas msicas romnticas a embal-los.
Finalmente a orquestra parou de tocar. Para surpresa de Martha, Simon a fitou dentro dos olhos e beijou-lhe a boca com firmeza.
Martha, que jamais pensou que ele ousasse tanto, no reagiu. E se espantou ainda mais quando o viu tirar um leno do bolso e limpar os lbios que tinham ficado sujos de batom. Depois, Simon se afastou.
Totalmente desorientada, Martha foi para a mesa de Ricky e, antes que acabasse caindo por causa da moleza que sentia nas pernas, sentou-se.
No acha que est exagerando?
Martha, ao ouvir aquela voz, comeou a tremer. Jogou na mala uma pea de roupa que tinha nas mos e encarou Simon.
	De novo? De novo voc ousou invadir a minha casa?
	Eu no invadi. Ivete meu deu a chave.
	No seja ridculo!
	No estou sendo ridculo.
	Eu deveria ter imaginado que sua querida titia iria lhe avisar.
	E ela fez muito bem. No tem cabimento voc largar tudo e voltar para a Austrlia.
	No tem cabimento voc invadir a minha casa, isso sim!
	Martha, seja razovel!
	Eu estou sendo mais do que razovel: vou embora e pronto!
	Minha tia me disse que sou eu o culpado por voc estar arruinando uma carreira fantstica. Voc no pode deixar tudo de uma hora para outra.
Martha continuou colocando as roupas na mala sem dizer mais nenhuma palavra.
	No se comporte como se eu no estivesse aqui!
	Para mim voc no est aqui, Simon Macquire!
	Minha tia me disse que eu destru voc.
	E voc acreditou? Meu Deus! Seu ego  bem maior do que eu imaginava, sabia?  ela ironizou.
	Essa sua reao  por causa daquele beijo? Est arrependida?
Martha colocou as mos na cintura e se aproximou dele.
	Como os homens so convencidos... Para comeo de conversa, sr. Macquire, eu no o beijei! E se quer mesmo saber, vou voltar para o meu pas porque estou muito decepcionada.
	Comigo?
	Principalmente com voc. No quero continuar num lugar onde sou encarada apenas como uma bonequinha de luxo, como um objeto qualquer que est exposto numa vitrine diante dos olhares de todos. Quero muito, muito mais para a minha vida. E na noite passada no merecia ser tratada por voc daquele jeito! No merecia mesmol
	Ah, ento  isso.
	V embora, Simon! Por favor, me deixe em paz!  Ela voltou a colocar roupas dentro da mala.
Simon viu um jornal jogado no cho e se abaixou para peg-lo. Na primeira pgina estava estampada uma fotografia de Martha, no instante em que fora deixada sozinha na pista de dana. Sobre a foto, a manchete: "Ser que a belssima Martha Winters merecia ser tratada de uma maneira to rude?"
	Ento foi isso... Eu ainda no li os jornais de hoje.
	Fora do meu quarto, Simon!
	Eu no vou sair!
	Tudo bem, ento fique!  Ela foi para a cozinha.
Simon a seguiu.
	Vamos sair para dar um passeio de carro  ele sugeriu.
	De jeito nenhum.
	Martha, por favor, seja razovel.

	Estou cansada de ser razovel, Simon.  s o que estou fazendo desde que pus os ps aqui em Londres.
	Vamos sair, a gente conversa um pouco e acerta essa situao. Sei que fui longe demais.
	No.
Simon no disse mais nada. Apenas a segurou pelo brao, abriu a porta da frente e fez com que Martha entrasse no carro dele.
	Voc  uma pessoa muito inconsequente, Simon  ela disse quando j percorriam as ruas de Londres.  Para onde est me levando?
	Quero que conhea um restaurante s margens do rio. Vamos almoar l. E um local bastante isolado.
	E por que est me levando para um lugar isolado?
	No precisa se preocupar, no vou tentar seduzi-la. S quero poder conversar com voc num lugar que no tenha fotgrafos nem jornalistas.
O restaurante era adorvel. Simon escolheu uma mesa no jardim, sob uma rvore imensa, bem prxima ao rio. Como prato principal, aps ter aceito a sugesto de Martha, pediu peixe assado, acompanhado por arroz  grega e vinho branco. Como entrada, pediu uma salada de legumes e verduras.
	Acho que isso tudo  para homenage-la  ele disse quando j comiam o peixe.
"Sobre o que voc est falando?
	Sobre o sol, sobre as flores... Acho que esse ano aqui est tudo mais bonito por sua causa.
	No precisa exagerar.
	Estou falando a verdade.
Martha estava estranhando aqueles elogios; mesmo assim agradeceu:
	Obrigada. Ainda bem que fiz algo bom para essa terra maravilhosa.
	Ivete fez um trabalho assombroso.
Martha apoiou os talheres no prato e perguntou:
	Em que sentido?
	Voc est muito diferente.
	Quer dizer, ento, que acha que eu mudei.
	Muito.
	Para melhor ou para pior?
	Para melhor,  claro. Hoje Ivete ficou muito brava comigo.
Disse que no estou tratando voc como merece. Que a nossa relao no faz o menor sentido.
	E ela disse mais alguma coisa?  ela perguntou com uma certa ironia.
	Disse que voc  uma garota sensata, muito boa e sensvel.
	E voc, com toda certeza, fez questo de lhe dizer que tais qualidades no tm nada a ver comigo.  Martha tomou um gole de vinho.
	No, eu no disse isso a minha tia. Mas acho voc uma mulher muito estranha.
	Estranha? Eu?
	, voc.
	Bem, devo lhe confessar que voc  a nica pessoa sobre a face da Terra capaz de despertar o que de pior existe em mim, Simon Macquire.
	Isso que acabou de falar  muito interessante.
	Voc  um homem incapaz de enxergar sob a simples aparncia.
	O que est tentando me dizer, Martha?
Ela sentiu uma pontada no estmago por causa da vontade imensa que tinha de contar-lhe exatamente o que acontecera havia trs anos. Mas ser que Simon Macquire merecia Saber a verdade, saber o quanto tinha sido injusto com ela?
	Eu...
	Simon!  Uma voz de mulher a interrompeu.  Quer dizer que est aqui! Que coincidncia. Tentei falar com voc para almoarmos com Dave e Miranda, mas ningum antendeu ao telefone.
Martha estava de costas, mas tinha certeza de que aquela voz pertencia a Sandra Grant. E estava certssima. Quando Sandra conseguiu ver quem era a acompanhante de Simon, deu um largo sorriso e disse:
	Mas que prazer encontr-la, Martha. Sou Sandra Grant, uma grande admiradora do seu trabalho.  A moa olhou para os seus dois acompanhantes e perguntou:  Dave, Miranda, vocs conhecem Martha Winters?  a mais fantstica modelo que j apareceu em Londres.
O casal cumprimentou Martha com muita simpatia.
	Dave e Miranda chegaram da Austrlia ontem. Foram passar a lua-de-mel l e gostaram muito.  Martha olhou para Simon e disse:  J que ainda esto almoando e a mesa  bem grande, vamos nos juntar a vocs.
Sandra continuou falando durante todo o almoo. Os demais s muito de vez em quando conseguiram emitir uma ou outra opinio.
"Ser que ela ainda no viu os jornais de hoje, ou Sandra est fingindo que nada aconteceu? Se est fingindo, essa mulher  uma excelente atriz. Deveria deixar os negcios e se dedicar ao teatro", Martha pensava.
Aps o trmino do almoo, quando todos se levantaram, Sandra no teve dvida: se colocou ao lado de Simon e de l no saiu mais. Mesmo na volta, Sandra fez questo de deixar os amigos irem sozinhos e se sentar ao Jado de Simon no carro. Martha foi para o banco de trs.
Assim que Simon acelerou, Martha percebeu que ele estava se dirigindo para a casa dela.
"E voc queria o qu?  claro que Simon vai querer ficar sozinho com a namorada..."
Quando Simon parou o carro, Martha os convidou para um caf.
	Eu agradeo muito, querida, fica para outra vez.  Sandra logo agradeceu.  Ah, sim... que cabea essa minha! Estava me esquecendo: na prxima quarta darei um jantarzinho para poucas pessoas em minha casa. Ficarei muito feliz se comparecesse. E no precisa se preocupar: tambm vou convidar o Ricky.
	Bem, eu...
	Vamos, Martha, anime-se  Simon a incentivou.  A que horas ser o jantar, Sandra?
- s sete.
	Ento eu passo para peg-la em torno de quinze para as sete, Martha.
	Tudo bem  ela respondeu com um certo desnimo e desceu do carro.
	Martha, diga a Ivete que eu lhe mandei um grande abrao.
	Eu digo, pode deixar.
No final da tarde, Ivete foi fazer uma visita a Martha. As duas conversavam na sala.
	Quer dizer, ento, que voc resolveu ficar?
Martha, perdida em pensamentos, no respondeu  pergunta.
	Querida, estou falando com voc.
	O que foi que disse?
	Eu lhe perguntei se realmente resolveu ficar em Londres.
	Eu estou muito confusa.
	Ainda no entendi como Sandra fez para encontr-los l no restaurante.
	Deve ter sido coincidncia.
	Coincidncia, para mim, tem limite. Logo hoje que voc e Simon estavam a fim de conversar... Me conte exatamente o que aconteceu.
Martha atendeu ao pedido de Ivete.
	Ento foi assim? Sempre soube que Sandra era inteligente, mas hoje ela se superou. Realmente a sua adversria  muito dura na queda.
	No entendi esse seu comentrio, Ivete.
	Pois deveria ter entendido.
	... mas no entendi.  Martha balanou a cabea de um lado para o outro.
	Voc est numa guerra.
	Guerra?
	Sim, e tem uma adversria muito, muito esperta.
	Ivete, se est imaginando que vou ficar disputando o seu sobrinho com Sandra Grant...
	Bem, a escolha  sua. Mas agora acho que deveramos comer uma bela omelete.
	Est me convidando para comer uma omelete?
	Na minha casa. Eu fao a melhor omelete de Londres.
Na quarta-feira, no final da tarde, Ivete entrou no apartamento de Martha com uma mala nas mos.
	O que  isso?
	Roupas. Precisamos escolher uma roupa bem bonita para voc.
	Mas eu j estou pronta.
	E est linda com esse conjunto rosa. Mas as roupas que eu tenho aqui so deslumbrantes.  Ivete abriu a mala e pegou um dos vestidos.  Esse amarelo  fantstico. Tem um belo decote...
	Ivete, eu no vou trocar de roupa.
	E esse aqui?  Ivete pegou um outro vestido.  Ele  meio transparente e...
	Desista, Ivete. Gosto da roupa que estou usando.
	Mas ela  muito discreta.
	Acontece que eu sou uma pessoa discreta.
	No, voc  Martha Winters, a modelo mais famosa da Inglaterra, e logo, logo, do mundo inteiro.
	Ivete, agradeo muito o seu interesse, mas estou indo a um simples jantar.
	A  que se engana, mocinha: voc est indo para uma batalha e tem que usar todas as armas disponveis.
	No concordo com a sua opinio.
	Quanta teimosia! Ser que no confia em mim?
	Confio muito em voc, Ivete, mas no consigo encarar os relacionamentos entre um homem e uma mulher como uma guerra.
	Pois deveria. Sou mais velha e mais experiente que voc e sei o que estou falando.
	Agradeo muito o seu interesse, mas vou com essa roupa mesmo.
	Voc  quem sabe. Depois no diga que eu no a avisei...
Simon passou na casa de Martha no horrio combinado. Depois de trocarem algumas palavras, os dois entraram no carro.
	Voc est muito calada, Martha. O que foi que aconteceu?  ele comentou ao parar num semforo.
	Para lhe dizer a verdade, estou achando tudo isso muito estranho.
	O qu? O convite de Sandra?
	Exatamente. E tambm fiquei muito espantada com a sua atitude.
	Daria para me explicar melhor o que voc est querendo dizer?
	Claro: voc quis imediatamente que eu fosse a esse jantar.
	Mas esse jantar  na casa de Sandra.
	Por isso mesmo.
: Continuo sem entender.  O sinal abriu e Simon seguiu por uma longa avenida.
	Deixe para l. No tem importncia.
	Para mim tem importncia, sim. Por favor, diga o que voc est pensando.
	Acontece, Simon, que eu achei mesmo muito estranho esse convite. Ainda mais depois do jornal de domingo. Afinal, Sandra  sua noiva.
	Sandra no  minha noiva.
	Mas  claro que ela  sua noiva.
	No, no , Martha.
	Nem extra-oficialmente?
	Nem extra-oficialmente. Quem lhe disse essa maluquice?
	Ivete.
	Minha tia  uma grande exagerada.
	Mas voc e Sandra agem como se fossem um casal.
	Ser?  Ele a fitou intrigado.
	Agem, sim.
	Vou ficar atento a isso.  Ele sorriu.
	 apartamento de Sandra era luxuosssimo e ficava numa das ruas mais nobres de Londres.
	S estavam faltando vocs  ela disse ao receb-los.  Entrem, entrem...
Na sala, alm de Dave e Miranda, s estava presente Ricky Asquith-Font.
"Sabia que o jantar seria ntimo, mas no imaginei que fosse s para seis pessoas...", Martha pensava ao sentar-se.
Ricky, encantado, logo foi sentar-se ao lado de Martha.
Meia hora depois o jantar foi servido.
"Talheres de prata, louas raras, vinho francs, comida finssima... Realmente Sandra se esmerou neste jantar", Martha observava o requinte de tudo, enquanto os outros conversavam sobre os mais diferentes assuntos.
Dave e Miranda estavam apaixonadssimos pelo trabalho de um poeta australiano que Martha conhecia de h muito.
	Ele  fantstico  Miranda disse, entusiasmada.  Voc o conhece, Martha?
	Conheo, sim, se quiser tenho uma antologia dele e posso lhe emprestar.
	Adoraria, obrigada.
Ao ouvir Martha dizendo que tinha uma antologia do poeta australiano, Sandra no se conteve:
	Quer dizer, ento, que Martha Winters se interessa por poesia?
	Muito.  Martha sorriu com timidez.
	E  s por poesia que voc se interessa?
	Geralmente me interesso pela palavra escrita. Mas gosto de msica tambm.
	Msica pop?
	... eu gosto de msica pop, mas prefiro os clssicos.
	E eu que pensei que as modelos s se interessassem pelo espelho  Sandra brincou.
	Infelizmente  esse o conceito que a maioria das pessoas tem das modelos.
	Eu jamais seria uma modelo  Miranda comentou.  Do jeito que eu gosto de comer... O que voc faz para manter a forma, Martha?
	Felizmente, por natureza, eu no tenho a menor tendncia para engordar. E tambm no sou de comer muito.
	Quanta felicidade!  Miranda sorriu.  Eu engordo s de olhar para as comidas.
Dave e Ricky comearam a participar da conversa e tambm contaram que tinham muita facilidade para engordar. No final do jantar, o clima entre todos estava bastante descontrado.
Na hora em que Miranda e Dave resolveram ir embora, Ricky se ofereceu para levar Martha at em casa.
	De motocicleta?  ela perguntou.
	No se preocupe, Martha, hoje estou de carro.
Simon no disse nada. Apenas se colocou ao lado de Sandra.
	Ento eu aceito a carona. Com a roupa que estou usando, no daria para andar na garupa da sua moto, Ricky.
Ao parar o carro em frente  casa de Martha, Ricky parecia muito pouco  vontade. Os dois desceram e o rapaz a acompanhou at a porta do apartamento.
	Obrigada pela carona, Ricky. Voc foi muito gentil.
	Martha, eu...
	O que foi?
	Posso lhe fazer uma pergunta?
	Mas  claro que sim.
	Voc... voc gosta de mim?
	Gosto, gosto muito.
	Que bom.  O rapaz respirou aliviado.  Me sinto bem melhor ouvindo isso. Quer namorar comigo?
Martha levou um susto ao ouvir a proposta. Precisava definir aquela situao sem perda de tempo.
	Ricky, sinto muito, mas neste momento da minha vida no quero assumir compromisso com ningum e...
	Nem precisa continuar, Martha. J entendi tudo  Ricky a interrompeu.  O homem que povoa seus pensamentos se chama Simon Macquire.
	No, voc est enganado.
	Para o jardim?
. No, estou me referindo ao jogo beneficente.
	Vim com uma amiga, Annabel.
	Ah, acabei de v-la conversando com um compatriota seu. E como vai Ricky?
	Bem, muito bem.  Fazia pelo menos dois dias que ela no tinha notcia do rapaz.  Voc joga plo muito bem.
	Obrigado.
Martha levantou-se e quis se afastar. Simon a impediu.
	Por que voc est falando sem olhar para o meu rosto?
	Eu? E impresso sua.
	Est com medo de mim?
	De jeito nenhum.  No instante em que Martha se esforava para encar-lo, Annabel apareceu toda animada, acompanhada por um homem muito bonito.
	Martha! Finalmente a encontrei. Este  Paul, seu compatriota.  Olhando para Simon, a garota disse:  Agora h pouco esqueci de parabeniz-lo pelo jogo, Simon. Voc jogou muito bem.
	Obrigado, Annabel.
	Martha, Paul e eu resolvemos voltar amanh para Londres. Ser que existe algum inconveniente para voc?
	Bem, eu...
	Se quiser, Martha, posso lhe dar uma carona. Estou voltando para Londres daqui a pouco  Simon ofereceu.

CAPITULO IV

Apesar dos protestos velados de Annabel, Mar-Ltha resolveu aceitar a carona de Simon. No incio da viagem de volta, os dois ficaram em silncio, como se temessem iniciar uma conversa. Mas foi Martha quem, de repente, disse:
	No sabia que voc gostava de cavalos.
	Sempre adorei animais, principalmente cavalos.
	Eu tambm gosto muito de cavalos.
	 mesmo? E voc sabe cavalgar?
	Digamos que agora eu estou meio fora de forma, mas houve uma poca da minha vida em que eu cavalgava muito  ela disse, pensando na infncia.  Voc joga plo muito bem.
	Acho que, na verdade, joguei plo muito bem.
	Por que voc parou?
	Entre outras coisas, por falta de tempo.
	 uma pena...
	E a vida, Martha. Mas sempre que d eu me dedico  equitao e jogo plo. O cavalo que eu cavalgava hoje  um dos que comprei h pouco tempo.
	Ele  muito bonito.
	Eu tambm acho.  Ele sorriu.  Bem, aqui estamos ns, e eu nem precisei rapt-la.
	No dava para ficar l, eu...
	Ficou com medo de que seu compatriota se interessasse por voc e acabasse interferindo na amizade que tem com Annabel? Ele no me pareceu assim to rico.
Ela olhou no relgio e disse:
	Exatamente nove minutos.
	Nove minutos? No entendi.
	Esse foi o tempo exato que precisou para comear a me insultar.
	Essa  a Martha Winters que eu conheo!
Martha no respondeu quela provocao. Viu que seria bem melhor para os dois ficarem calados. Aps terem percorrido alguns quilmetros; Simon disse:
	No quer colocar msica para ouvirmos?
	No. Esse  um servio para Sandra fazer  ela respon deu sem pensar.
	Mas Sandra no est aqui.
	A presena dela est.  Martha, que tinha recostado a cabea no banco do carro, olhou para a noite l fora. Se pudesse, dormiria at Londres e no trocaria mais nenhuma palavra com Simon.
Cinco minutos depois, ela percebeu que Simon mexia no painel do carro. No instante seguinte, uma melodia suave invadiu o ambiente. Era o som de um dos noturnos de Chopin.
"Essa msica  linda. To suave... Eu adoro Chopin. Ele me relaxa, me deixa mais perto de Deus... Seria to bom que Simon no me tratasse com tanta animosidade, com tanto desdm."
Martha tentou se controlar, mas foi inevitvel: as lgrimas comearam a rolar pelo seu rosto.
	Martha...
Ela permaneceu quieta.
	Martha, estou falando com voc.
	O que foi?
	Por que voc ficou to quieta de repente?
	Eu sou uma pessoa quieta.
	No, pelo que sei, voc fala at demais.
	Pois a est o problema, Simon Macquire: voc no me conhece.
	Conheo o suficiente.
	No seja to arrogante.
	Voc est chorando?  ele perguntou.
	Ser que vai implicar at com as minhas lgrimas?
	Por que voc est chorando?
	 a msica.
	Chopin? Voc gosta de Chopin?
	Muito.
	Quem diria...
	Simon, quer parar de falar dessa maneira comigo?
	E de que maneira voc quer que eu fale?
	Tenha, no mnimo, um pouco de educao. Voc  to educado com as outras pessoas.

	Voc sempre me surpreende, sabia? Entende de literatura, gosta de Chopin...
	 mesmo?  ela ironizou.  Pois voc no me surpreende nem um pouco.
	Sou to previsvel assim?
	Simon, por favor, vamos ouvir a msica. Ser que ainda no percebeu que no temos a menor chance de nos tornarmos amigos?
	Por que no?
	Voc me trata de uma maneira muito agressiva.
	Eu? Eu trato voc de uma maneira agressiva?
	Desde a primeira vez que me viu.
	E voc queria o qu? Lembra o que estava fazendo com aquele careca e barrigudo?
	Claro, mas  claro que me lembro. S que voc viu apenas uma parte daquela histria srdida.
	Como assim?  ele perguntou, curioso.
	Eu estava naquela recepo porque precisava ganhar a vida.
	Eu vi mesmo.
	No seja to preconceituoso, Simon!
	Eu no sou preconceituoso.
	Mas  claro que . Voc viu uma atitude minha e me julgou. E me julgou pelos conceitos que tem dentro da sua cabea.
	Martha, por que negar? Voc estava tentando seduzir aquele homem.
	No, eu no estava tentando seduzi-lo. Eu ia atac-lo.
	E no  a mesma coisa?
	Viu s? Viu s como voc ? Acho melhor ns pararmos de conversar. Agradeo muito pela carona, mas no quero mais falar.
	O que foi? Est com medo de no me convencer?
	No, eu no estou com medo de nada!  Martha viu que seria melhor enfrentar de vez aquela situao.  Fique voc sabendo que aquele careca, poucos minutos antes de voc aparecer, teve a ousadia de me tocar! Eu fiquei furiosa e, por mim, teria dado um belo tapa na cara dele. Mas no pude, no queria perder o emprego. A, resolvi atrai-lo com a rosa. Acontece que, no instante em que ia pisar com toda fora com o salto do meu sapato no p dele, voc apareceu e me arrastou de l. Satisfeito?
	E os seus outros amantes?
	Ser que no entendeu? No existiam outros amantes.
	E o Vinny?
	Vinny? Sei l quem  esse Vinny.
	Voc vivia me falando desse tal de Vinny.
	Naquela poca, para provoc-lo, eu falava o que vinha
 minha mente.
	Est tentando me dizer que eu a feri profundamente?
	Feriu. Feriu, sim. Eu estava completamente desorientada. Tinha que frequentar aquelas recepes horrorosas para sobreviver, para poder pagar o aluguel daquele quartinho onde eu morava. Quando voc comeou a me tratar como uma qualquer, como defesa, passei a me comportar como uma qualquer. E sentia muito prazer em ofend-lo. Andei pensando muito ultimamente sobre o meu comportamento.
	E a que concluso voc chegou?
	Que agi como uma idiota. Mas era mais forte do que eu. Afinal, no  nada fcil para uma garota de dezenove anos, totalmente insegura, ser tratada com tanto descaso por um homem sofisticado como voc.
	Se algum a ouvisse falando dessa maneira sobre mim, iria achar que eu sou algum muito especial.
	Para lhe dizer a verdade, voc foi, sim, muito especial para mim. Para aquela garota de dezenove anos que precisava andar a p para economizar dinheiro, que precisava contar cada centavo para comer, voc foi muito especial. Eu me encantei por voc, Simon.
	Voc se encantou por mim?
	Por que a surpresa?
	Mas voc me tratava de um jeito...
	E voc? J parou um pouco para pensar em como me tratava?
	Mas eu pensava que voc fosse...
	Isso no  motivo para destratar uma mulher  ela no deixou que Simon terminasse a frase.  Todos os seres humanos tm que ser tratados com muito cuidado, com muita educao.
	Martha, eu...
	Simon, no adianta se justificar. Se eu me comportei de maneira errada com voc, seu comportamento comigo foi muito pior. Pense nisso. Pense e tente mudar. Qualquer pessoa merece o mnimo de considerao.
As palavras de Martha pareciam t-lo atingido em cheio. Simon aumentou um pouco o volume do rdio e ficou calado at que entrassem em Londres. De repente, ele parou junto ao meio-fio de uma longa avenida.
	Algum problema no carro?  Martha quis saber.
	No.
	Ento por que voc parou?
	Quero que fale sobre o encantamento que sentia por mim.
	Ah,  isso?  Ela sorriu de maneira triste.  Coisa de adolescente insegura.
	Ser?
	Claro que sim. E, pensando melhor, no foi bem um encantamento. Foi uma grande atrao fsica, que a maioria das jovens sentem pelos homens mais velhos.
	Eu tambm senti por voc esse encantamento, ou o que agora est chamando de atrao fsica.
O corao de Martha deu um salto dentro do peito.
	Mas isso agora faz parte do passado, Simon  ela tentava mostrar uma segurana que estava longe de sentir.
	S queria que soubesse. Talvez agora consiga entender melhor o que aconteceu conosco.
	 sempre bom entender o que nos aconteceu no passado. Ajuda a enfrentar melhor o presente. Enfim... vivendo e aprendendo.
	S que existe um pequeno problema, Martha.
	Pequeno problema? E qual  ele?
	Essa atrao fsica ainda existe entre ns dois.
	Imagine...
	Eu no imagino. Eu sinto!
Martha se assustou com o rumo que a conversa estava tomando.
	E Sandra? O que ela acha disso?
	Eu j lhe disse que no tenho nada com Sandra. Ela  apenas minha amiga!
	Sei...
	Estou lhe dizendo a verdade, Martha.
	Acho melhor ns irmos embora.
	Ainda no acabei de dizer tudo o que estou com vontade.
	No temos nada o que dizer um ao outro.
	Temos, sim. E voc sabe disso.  Simon inclinou o corpo e, antes que Martha pudesse pensar no que estava acontecendo, ele a beijou.
Martha olhou para o relgio de cabeceira. Seis horas da manh. Fazia uma semana que no dormia e no comia direito. E tudo por causa de Simon, daqueles beijos que no soubera recusar, daquelas carcias que havia esperado por tanto tempo. Fora impossvel se Gonter. Em alguns momentos, ela se sentia profundamente arrependida por ter aceito aquela carona, em outros achava que no se podia fugir ao destino. Aquilo tinha que acontecer um dia. A atrao fsica existente entre os dois ainda continuava muito forte. Aps terem se beijado e se acariciado por um longo tempo, Simon a deixara em casa e fora embora. Depois...
"Uma semana... uma semana que s fao pensar neste homem... Simon Macqure acabou com o resto do equilbrio que ainda me restava. Como eu gostaria que Jane estivesse aqui. Ns poderamos conversar longamente sobre tudo o que est acontecendo... Com Annabel no d. Ela teme que Simon me faa sofrer ainda mais."
Martha levantou-se e foi tomar um banho. Depois, seguiu a p para o ateli. No caminho, passou por uma igreja e entrou para rezar.
	Sua aparncia est pssima  Ivete disse assim que a viu.  Est plida, com olheiras... Voc precisa se cuidar, Martha.
- Estou fazendo o possvel.
	Acho melhor tirar umas frias.
	E o trabalho?
	No se preocupe com o trabalho. Por que no vai conhecer a Esccia?
	Esccia?  ela perguntou espantada.  De jeito nenhum!
	Pois voc deveria. L tem lugares fantsticos. Tenho certeza de que se for para l a sua palidez vai desaparecer.
	No vou para a Esccia de jeito nenhum  Martha repetiu.
	Ele no est l  Ivete afirmou.
	Quem?  Martha perguntou, tentando ignorar os prprios pensamentos.
	Quem poderia ser? Simon,  claro!
	Simon?  Martha se fez de desentendida.
	Falei com o meu sobrinho por telefone. E ele me contou.
	Contou o qu?
	Que h uma semana lhe deu uma carona. S isso. E como h uma semana voc vem se comportando de maneira muito estranha, no foi difcil deduzir. Mas no se preocupe, ele est na Frana.  Ivete deu um sorriso malicioso.  Mas me diga: o que aconteceu entre vocs?
	Nada. No aconteceu nada entre ns dois.
	Tem certeza?
	Absoluta.
	Por que, ento, ficou vermelha de repente?
	Eu... eu...
	No precisa explicar. Imagino o que aconteceu. Mas agora, voltando  Esccia: quero que viaje para l.
	Mas por qu?
	Quero umas boas fotos dos meus melhores vestidos. E a Esccia tem lugares maravilhosos. Sei que as fotos ficaro excelentes.
	E voc vai para l comigo?
	No, eu estou indo para Paris.
	E quem voc est pretendendo que me fotografe?
	Charles Snow. Voc no acha que  um bom profissional?
	Acho. Charles  um dos melhores.
	Ento, se tivermos sorte, voc vai acabar na capa da Vogue.
	Isso seria muito bom.
	Ento? Posso ligar para o Charles?
	Pode.
Martha viajou para a Esccia na companhia de Charles Snow. Em dois dias o fotgrafo j tinha terminado o seu trabalho.
	Quer dizer que voc vai mesmo ficar mais uns dias por aqui?  Charles perguntou, colocando as malas dentro do carro.
	Vou, sim. Achei essa terra fantstica. Existem vrias localidades e muitos outros castelos que quero visitar.
	Bem, at Londres, ento.  Ele entrou no carro.
	Faa uma boa viagem, Charles.
	Obrigado. Ah! Eu lhe dei o endereo da locadora?
	Deu, sim. Daqui a pouco vou at l para alugar um carro.
	Essa locadora  muito boa. Existem filiais por todo pas. Tchau, Charles. Guie com cuidado.
	Voc tambm.
Assim que o fotgrafo foi embora, Martha se dirigiu para a locadora. Escolheu um carro branco e uma hora mais tarde j estava na estrada. Foram dias de muitos passeios e de muito pensar. A Esccia realmente era uma terra linda. Os campos, as montanhas, os lagos, os castelos, as pequenas cidades...
Martha deixou para o final da viagem a ilha que Ivete lhe recomendara muito para conhecer: Mull.
E realmente Ivete tinha razo; a ilha era muito bonita. De l, ela foi visitar outras ilhas menores. Num final de tarde, quando voltava de uma visita a uma dessas ilhas, Martha sentia-se meio melanclica. A balsa em que se encontrava atracou em Mull. Ela entrou no carro, saiu da balsa e pegou a estrada em direo ao pequeno hotel em que se hospedara em Craignure. De repente, em sua frente apareceu uma barreira feita por vrios barris. Ao invs de desviar, Martha resolveu parar para apreciar a beleza da regio. Como tinha sido a ltimo pessoa a deixar a balsa, no se preocupou com o trfego e durante dez minutos ficou embevecida com o que tinha diante de si.
De repente, ela ouviu uma buzina tocando insistentemente. Martha, assustada, virou-se. "No! No  possvel! Esse carro... esse Jaguar  de Simon!"
No instante seguinte, muito irritado, ele se aproximava da janela do carro dela.
Como  que a senhora pode parar a? Ser que no sabe que jamais, jamais se deve parar no meio da estrada?  S quando abaixou-se junto  janela ele viu quem era a motorista.
 Voc... voc... que diabos est fazendo aqui.
	Eu  que pergunto: que diabos voc est fazendo aqui?
Ser que resolveu me perseguir, sr. Macquire?
	No seja petulante, garota, minha famlia tem uma casa aqui.
	Aqui em Mull?
	Exatamente.
	Mas Ivete me disse que voc estava na Frana.
	Ela disse isso? Pois, ento, Ivete mentiu. Nessa poca do ano eu venho sempre para c. Ser que no foi voc quem me perseguiu at aqui?
	E voc acha que eu me daria ao trabalho?
	Bem, Martha, no vou ficar aqui discutindo com voc. Por favor, ligue esse carro e saia do caminho.
	Quem  voc para me dar ordens?
	Martha, tire esse carro da.
Ela viu que no tinha mesmo o menor sentido ficar discutindo no meio da estrada.
"Alm de tudo, Simon est coberto de razo. Eu no deveria ter parado aqui. Foi muita imprudncia da minha parte."
Nervosa, Martha ligou o carro. O veculo deu um salto, derrubou dois dos barris que se encontravam  sua frente e parou de funcionar.
	Ser que no lhe disseram que quando vamos ligar o carro precisamos deix-lo em ponto morto?
Martha no respondeu  pergunta. Colocou o carro em ponto morto e acionou mais uma vez a ignio. Nada aconteceu. Algo havia acontecido com o veculo.
	Tente de novo  Simon a instruiu.
	Era o que eu ia fazer.
Martha tentou ligar o carro inmeras vezes. Vendo que se continuasse acabaria descarregando a bateria, ela desistiu e desceu.
	Algo aconteceu com o motor  ela disse.
	Deu para perceber  Simon ironizou.
	Mas no tem importncia. Eu entendo de mecnica. Vou ver o que aconteceu.
	Voc entende de mecnica'?
	Qual  o problema? Ser que uma mulher no pode entender de mecnica?
	 claro que pode, mas duvido que algum dia j ouviu falar em carburador, motor de arranque e coisas desse gnero.
	No me subestime, Simon Macquire! No me subestime.
	Tudo bem, Martha. Talvez voc at entenda de mecnica, mas no pode abrir esse capo agora.
	Por que no?
	Logo vai escurecer.
	E o que eu vou fazer, ento?
	Eu reboco o seu carro.
	Gomo?
	Tenho uma corda no meu porta-malas.
	Voc vai me rebocar at Craignure?
	No, vou reboc-la at a minha casa. Craignure fica muito longe daqui.
	No quero ir- para a sua casa.
	Agora no  hora de discutir, Martha Winters. Estou cansado e louco para tomar um banho. Venha, vamos pegar essa corda.
Martha estava admirada com a casa da famlia de Simon. Imensa, toda em pedra, ela devia ser muito antiga. Os dois foram recebidos pela governanta.
	Grace, essa  Martha. Ela vai passar a noite aqui. Por favor, leve-a para o quarto amarelo. Algum ligou?
Grace pegou uma lista com os nomes das pessoas que haviam telefonado e entregou a ele.
	Obrigado, Grace.
A governanta levou Martha para o quarto.
	Se precisar de alguma coisa, senhorita,  s me chamar pelo interfone.
	Esse quarto  muito bonito.
	 muito bonito, sim. Amanh, quando clarear, poder apreciar melhor a regio ali. da janela. Esse  um dos locais mais bonitos de Mull.
Assim que a governanta a deixou sozinha, Martha foi tomar um banho. Uma hora mais tarde, j vestida, ela penteava os cabelos em frente ao espelho.
"Tudo aqui  to sofisticado... Mas eu pensei que os pais de Simon estivessem aqui... Ou ser que eles esto? Esta casa  to grande!"
Uma batida na porta interrompeu-lhe os pensamentos. Era a governanta, que, ao entrar, no conteve a admirao:
	A senhorita est linda.
	Eu?  Martha olhou para o conjunto de viscose branco que havia vestido.
	Me desculpe dizer, srta. Winters, mas sou fa do seu trabalho.
	Obrigada, Grace. Mas, por favor, me chame de Martha.
-  Claro, senhori... Claro, Martha. O sr. Macquire pediu que eu a avisasse que o jantar est quase pronto. Ele tambm pediu que eu lhe dissesse que a aguarda para um drinque.
	Obrigada  ela tornou a agradecer , eu vou descer daqui a pouco. Ah, Grace...
	Pois no.
	Tem mais algum aqui nesta casa alm de Simon?
	No, mais ningum.
Martha era aguardada por Simon na sala de jantar.
	O que voc quer beber?  ele perguntou assim que a viu.  Vinho do Porto ou usque?
	Vinho do Porto, por favor.
Simon serviu-lhe o vinho e perguntou:
	No quer se sentar?  E indicou-lhe um sof perto da janela.
Martha sentou-se.
	Sobre o que ns vamos conversar?  Ele tambm sentou-se.
	No sei. Por que no escolhe o assunto?  Martha sabia que Simon a estava provocando.
	Bem, que tal conversarmos sobre a obsesso da minha tia?
	Obsesso? Sobre o que voc est falando?
	Tenho a sensao de que ela planejou esse nosso encontro.
	Isso s pode ser delrio de sua parte.
	Acontece, Martha Winters, que nunca vou  Frana nessa poca do ano. Sempre venho para Mull. E Ivete sabe disso.
	No sei o que lhe dizer. Talvez ela fique rezando para que voc se case.
	Com voc?
Comigo ou com qualquer outra moa.
	No. Tenho certeza de que ela fica arrumando um jeito para que a gente se encontre. Ivete ainda no se conformou com o fato de eu ser solteiro.
	Deve ser por causa da idade...
	Minha? Eu no sou to velho assim. Tenho trinta e dois anos.
	Bem, Simon, acho que esse nosso encontro no passou de uma grande coincidncia. Se eu no tivesse parado naquela estrada, no teramos nos encontrado. 
	 verdade. Mas garanto que foi Ivete quem sugeriu que voc viesse para a Esccia.
	Foi mesmo. Nos primeiros dias que fiquei aqui fiz algumas fotografias. Depois, aluguei um carro e resolvi conhecer melhor a regio. Mas voc tem razo... Ivete me recomendou que no deixasse de conhecer Mull.
	No falei? : Simon deu um largo sorriso de satisfao.  Ela est obcecada, sim. E como est sua relao com ela?
	Bem. Ela me ajuda muito.
Grace entrou na sala e os avisou que o jantar seria servido.
	Venha  Simon se levantou.  Vamos jantar numa parte muito interessante da casa.
"S interessante?", Martha se perguntou em pensamento ao entrar no local que Simon havia dito ser uma parte muito interessante da casa. "Isso aqui  maravilhoso!"
A mesa, em madeira tosca, fora posta num cmodo repleto de plantas que tinha o teto removvel. A uma certa altura da mesa, havia uma parreira carregada de uvas.
	Que local divino!
	Foi ideia da minha me.
	Ela tem muito bom gosto.
	Tem mesmo. Isso aqui para ela era um paraso.
	Era?
	Exatamente. Minha me faleceu no ano passado.
	Eu sinto muito...
	Eu tambm. E ningum me tira da cabea que, no fundo, ela morreu por causa do meu pai.
	No entendi.
	Se voc o conhecesse, iria entender. Meu pai  o homem mais egosta que existe sobre a face da Terra. E fez da vida da minha me um grande inferno. Ele nunca a respeitou. Amantes, jogo... e muitas outras coisas.
	E por que a sua me no se separou dele?
	Por amor. Ela o amava desesperadamente.
	Agora d para entender melhor  Martha comentou, mas logo se arrependeu.
	O qu?  Simon quis saber.  O que d para entender melhor?
	O seu comportamento, a maneira como encara a vida. O fato de no ter se casado at agora.
	... a relao dos meus pais influiu muito na minha vida.
	E nem poderia ser diferente.
	Muito obrigado pela compreenso  ele ironizou.  Ser que est pretendendo se casar comigo?
	Voc nunca desiste, no , Simon? Quando a gente pensa que vai baixar a guarda, se tornar igual a qualquer outro ser humano, l vem voc com s suas ironias...
	Pois , cada um se defende como pode. Ser que j pensou que tanta ironia se deva ao fato de voc ser a mulher que eu mais desejei em toda a minha vida?
	Pronto! Aqui est o nosso pato assado!  Grace os interrompeu, triunfante.

CAPITULO V

Martha, trmula, estava sentada  mesa. A ^frase que Simon lhe dissera antes que a governanta entrasse naquele pedao de paraso no lhe saa da cabea: "Ser que j pensou que tanta ironia se deva ao fato de voc ser a mulher que eu mais desejei em toda a minha vida?" Ela estremeceu.
	O que foi?  Simon, que sentara-se em frente a ela, perguntou.  No est se sentindo bem?
	Acho que Grace exagerou. Ela fez muita comida.
Alm do   pato assado, a governanta havia preparado trs outros tipos de carne e quatro variedades de salada.
	Sempre que venho para c, ela faz questo de cozinhar para mim. E sempre  o mesmo exagero. Se no me cuido, acabo engordando uns cinco quilos nas minhas estadas aqui.
	Para dar conta de tanta comida precisaria no mnimo de umas dez pessoas.
	No se preocupe, coma o que tiver vontade. Aceita uma taa de vinho?
	Eu j bebi aquele Porto e...
	Mas esse vinho  um Macquire.  Ele indicou o rtulo da garrafa.  E da melhor safra que j tivemos.
Simon serviu-lhe do vinho e Martha concordou: era fantstico. Martha resolveu comer um pouco de salada de legumes e um pedao de pato.
	Como est a comida? Boa?  Simon perguntou aps ter se servido do mesmo que ela.
	Est muito saborosa.  Martha tinha vontade de se levantar e ir embora. "Mas ir embora para onde?", ela se perguntava. "Para Sidney? Para Londres? Tanto faz! O que eu queria mesmo era estar bem longe desta situao. Sinto que Simon est adorando o fato de eu ter ficado muito constrangida com o que ele me disse."
	Perdeu o apetite?  ele perguntou.
	... No estou com muita fome...
	Existe um detalhe em tudo isso que no consigo entender.
	Sobre o que exatamente voc est falando?
	Sobre o que aconteceu conosco h trs anos. Como con seguiu se comportar daquele jeito?  incompreensvel.
	s vezes a gente apenas segue um impulso.
	Um impulso?
	Voc no me conhece, Simon, no sabe nada sobre a minha vida.
	Ento por que voc no me conta?  Ele tomou um gole de vinho, e, vendo que Martha no parecia disposta a falar, continuou:  O que a levou a se comportar daquela maneira comigo? Sua maneira de ser sempre me intrigou muito.
Martha no sabia o que fazer. No sabia se lhe falava sobre a sua vida, ou se mudava radicalmente de assunto. Ela sentia-se confusa, com uma imensido de pensamentos a povoar-lhe a mente. Em vez de responder  pergunta, levou um pedao de pato  boca.
Simon, por sua vez, fez a mesma coisa. E os dois ficaram em silncio por longos minutos.
	No vai responder os motivos que a levaram a se com portar comigo daquela maneira, Martha?
Ela apoiou o garfo e a faca no prato e o fitou dentro dos olhos ao dizer:
	 muito difcil me expor, compartilhar a minha vida, o meu passado, com um homem que algumas horas atrs ficou furioso ao me ver.
	E como voc queria que eu me comportasse?
	Pelo menos, com um pouco mais de delicadeza.
	E voc acha que eu podia me comportar de uma maneira mais delicada?
	Deveria pelo menos ter se esforado.
	Martha, ponha-se no meu lugar. Voc sabe muito bem o que aconteceu conosco em Sidney. Depois, eu a encontro trabalhando para a minha tia. A, nos encontramos naqueli jogo de plo. Voc aceita a minha carona e no resiste oi meus beijos, s minhas carcias. Eu a deixo em casa e...
	Eu sei de tudo isso  ela o interrompeu.
	Por Favor, no me interrompa.  Ele continuou:   No dia seguinte eu lhe telefonei. Lembra do que me disse?
	Lembro muito bem.	
	E voc acha que eu fiquei muito satisfeito ao ouvir voc  me tratar da mesma maneira que fazia em Sidney? O mesmo tom de voz, a mesma maneira de falar...	
	Voc no me procurou mais.
	E nem estava pretendendo procurar. Depois de tudo isso, me diga: como eu poderia trat-la quando a encontrei na estrada?
	J disse: com um pouco mais de delicadeza.
	 fcil  ele riu , muito fcil falar.
	No ria de mim, Simon.
	Eu no estou rindo de voc.  essa situao absurda que me leva a rir, a achar tudo muito...
	Engraado  ela completou-lhe a frase.
	No, eu no ia usar essa palavra.
	Qual palavra, ento, voc ia usar?
	Trgico... Tudo isso , no fundo, muito trgico...
	Voc sempre quis ir para a cama comigo.
	E voc, no?
	Eu..
	No adianta negar, Martha. Existe uma atrao fsica muito grande entre ns dois.
	Eu no ia negar.
	Melhor assim.  Ele tomou mais um gole de vinho.
Martha, agora, olhava para o prato sem saber o que dizer.
	Como ? Desistiu de conversar comigo?
	No. Mas quero que saiba... Quero que saiba que nunca fui para a cama com ningum. Nem antes, nem depois de conhec-lo l em Sidney.  Martha, apesar da vergonha da confisso, continuou:  Acho que agora d para entender melhor o meu comportamento. E entenda uma coisa, Simon, no quero me envolver com um homem que sempre demonstrou desprezo por mim e que est envolvido com outra mulher. E tambm no quero me envolver com um homem que desaparece da minha vida na hora que bem entende.
	... eu suspeitava que voc era virgem.
	Voc sabia?  ela perguntou espantada.
	Eu no disse que sabia, eu disse que suspeitava.
	Mas o que o levou a essa suspeita?
	A maneira de voc agir. Por inmeras vezes tive a sensao de que estava descobrindo comigo novas sensaes.
	Est querendo dizer que sou desajeitada?
	No diria isso, muito pelo contrrio. Voc  incrivelmente fascinante, mesmo quando l em Sidney se fazia passar por algum que no era. Voc tem uma combinao rara de beleza e sensualidade. Mas  muito estranho que continue virgem. Se quer saber, quando a Vi l em Londres, a suspeita que tinha em Sidney no me passou pela cabea.
	Por qu?
	No sei... Talvez pelo excesso de informaes contraditrias que, de uma maneira ou de outra, voc sempre fez ques to de me passar.
	Mas eu nunca tinha lhe dito nada a meu respeito.
	As informaes, Martha, no so s passadas atravs de palavras. Mas me diga: por que continuou virgem durante esses trs ltimos anos?
Martha deu um profundo suspiro.
	Ser que estou sendo muito invasivo?
	No, acho que no. Mas  muito fcil responder a sua pergunta.
	Responda, ento.
	Eu ainda no encontrei o homem certo.  isso. Sei que  difcil encontrar o homem certo, principalmente agora com a minha fama, mas  assim que tem que ser.
	Ento  por isso...
	.    -
	Ser, Martha?  ele duvidou.
	Claro que .
	O motivo no seria outro?
	O que est querendo insinuar?
	Estava pensando que talvez voc ainda no tenha encontrado o homem que a fizesse sentir o mesmo que eu.
	Como voc  convencido.  Ela ficou muito irritada.  s vezes tenho a sensao de que voc se acha o mximo, o mais perfeito ser que a natureza j criou.
	Martha, no faa isso.
	No faa o qu?
	No fuja do assunto.
	Eu no estou fugindo de nada.
	Est. Est, sim. No tenho nada contra voc me achar uma pessoa convencida. Voc tem os seus motivos para pensar assim, mas est fugindo do assunto.
	No quero mais continuar falando sobre...
	Mas eu quero  ele a interrompeu.  E quero lhe dizer mais uma vez que eu no tenho nada com Sandra.	
	Por qu?
	No lhe parece bvio?
Martha levou a taa de vinho aos lbios, mas desistiu. No queria beber, no naquele momento.
	O que foi? Ficou muda?
	Ainda no. S estou tentando entender o que tem de to bvio na sua maneira de agir.
	Acontece, Martha, que mesmo indo contra todas as suas expectativas, sou um homem de uma s mulher.
	Mas... eu...
	Surpresa? Mas  claro que voc est surpresa. Sandra  uma excelente pessoa. Ela tem uma inteligncia rara,  muito bonita, mas no aconteceu. No aconteceu entre ns dois a atrao descomunal que existe entre mim e voc.
Martha achou que Simon estava sendo sincero e sentiu muito medo. Num impulso, ficou de p e disse:
	No consigo comer mais. Acho melhor eu ir dormir.
Simon tambm se levantou e tocou um sininho de prata. No instante seguinte, a governanta aparecia na porta.
	Por favor, Grace, quer nos servir o caf na sala de visitas? A srta. Winters est cansada e logo ir para o quarto.
	Pois no, senhor.
	Depois de nos servir o caf, voc pode ir para a sua casa.
	Antes vou guardar a comida que sobrou do jantar. Depois eu vou para casa.
Quando estavam novamente sozinhos, Martha quis saber.
	Grace no mora aqui?
	No, ela mora com o marido num chal atrs desta casa. Mas no se preocupe, nada vai lhe acontecer.
	Amanh bem cedo vou ligar para um mecnico.
	Para qu?
	Preciso que consertem o meu carro. Tenho que ir embora.
	Fique, Martha.
	No, eu...
	Fique, por favor. Passe uns dias aqui comigo. Prometo que no tentarei fazer amor com voc. A menos que voc queira.
	E o que eu vou ficar fazendo aqui?
	Esse lugar  mgico. Podemos descansar, ler, passear, pescar...

	Estava falando srio quando disse que no vai tentar fazer amor comigo?
	Muito, muito srio. Pode ficar tranquila. Agora vamos tomar o nosso caf l na sala de visitas.
Grace serviu-lhes o caf e saiu.
	E ento? Voc fica?  ele quis saber.
	Por qu? Por que voc quer que eu fique?
	Porque vai ser bom para ns dois. Quem sabe finalmente a gente consiga se conhecer direito.
	Mas voc disse que...
	Eu sei o que eu disse. E, acredite, no vou tentar fazer amor com voc.
Na manh seguinte, Martha acordou com Grace batendo na porta do quarto.
	Trouxe o seu caf da manh.
	Entre, Grace.  Ao ver a quantidade de comida que a governanta trazia numa bandeja, Martha no conteve o espanto:  Meu Deus!  comida demais.
	E a senhorita acha que eu no vi que no comeu nada ontem  noite?
	Grace, j lhe disse para me chamar de Martha.
	Certo, Martha.  Grace riu e colocou a bandeja sobre uma mesinha ao lado da cama.  Voc precisa se alimentar direito.
	Se eu seguir os seus conselhos vou acabar engordando uns dez quilos.
	E acha que vai fazer alguma diferena? Voc  magrinha demais.
Martha riu.
	O sr. Macquire pediu que eu lhe desse um recado.
	Recado?
	. Ele pediu para que vestisse uma roupa bem leve. Ele vai lev-la para pescar no lago.
	Pescar?
	Pelo jeito, voc nunca pescou. Mas ter um excelente professor!
A bordo do barco de Simon, Martha olhava atenta para a gua. "   Tem um peixe se aproximando  ela disse.
	Como voc sabe?
	Sexto sentido. No falei? . Ela comeou a enrolar a carretilha.  E deve ser dos grandes.
	Voc pesca muito bem, Martha.
	Nem tanto... D para o gasto.  Ela continuava a enrolar a linha.
	E o terceiro peixe que pesca em meia hora. Eu, at agora, ainda no pesquei nenhum.
	Os peixes gostam de mim.
	Por que disse a Grace que nunca tinha pescado?
	Eu no disse nada disso a Grace. Foi ela quem deduziu.
	Onde voc aprendeu a pescar?  Simon quis saber.
	Na minha casa tinha um lago... mas ele secou. E meu pai tinha um pequeno bote. Aprendi a pescar antes de aprender a falar.
	E mesmo?
	Pode acreditar.  Martha finalmente retirou o peixe da gua.  No disse que era dos grandes?
	Assim voc me humilha.
	Pelo menos temos garantido o nosso almoo e o nosso jantar.
	O jantar pode ser, mas para o almoo a Grace nos preparou uma cesta com sanduches, saladas, sucos...
	Tudo isso?
	Tudo isso.
. Quando Martha retirava o peixe do anzol, ele comentou:
	Voc me surpreende.
	Por qu?
	Sempre pensei que fosse o tipo de garota que no gostasse de sujar as mos.
	 mesmo? Pois saiba que adoro tudo o que se pode fazer com as mos.
	 inacreditvel. Por que resolveu ser modelo?
	Eu precisava ganhar a vida.  Ela colocou o peixe em uma cesta e voltou a atirar a linha na gua.

	Quer dizer que a profisso que escolheu  apenas um meio para chegar a um determinado fim?
	Digamos que sim.
	E o que voc vai fazer depois de atingir esse fim?
	Viver. Apenas, viver. Se eu tiver dinheiro suficiente, comprarei um pedao de terra com um lago. A poderei pescar sempre que tiver vontade. Poderei tambm plantar, cuidar da terra. Mas no gosto de ficar pensando nisso.
	Por qu?
	H muito tempo deixei de sonhar, Simon. A realidade acaba com os sonhos da gente.  Ela olhou para o lago. Veja! Voc pegou um peixe.
Os dois continuaram pescando pelo resto da manh. Depois de saborearem a comida que Grace havia lhes preparado, Simon sugeriu que voltassem para casa.
Martha o ajudou a atracar o barco no pequeno cais e, quando caminhavam a p, disse:
	Tambm nunca havia imaginado que voc fosse um bom pescador.
	Por qu?  ele sorriu.
	Voc s tem cara de executivo.
Simon colocou a cesta com os peixes no cho e segurou-lhe o queixo.
	Realmente voc no d a menor importncia ao sucesso que faz?
	E voc acha que eu deveria?
	Martha, a maior parte das moas da sua idade dariam tudo para estarem na sua posio.
	Para voc ver...
	, voc  mesmo surpreendente.  Ele pegou o cesto e o resto do trajeto foi feito em silncio.
Ao chegar em casa, Martha convidou Grace e o marido para a peixada que faria no jantar. Em seguida, foi para o quarto e tomou um longo banho. Depois, resolveu descansar um pouco e se surpreendeu quando acordou e olhou para o relgio de cabeceira:
	Meu Deus! Cinco horas! Preciso me apressar para fazer o jantar.
s sete horas em ponto o jantar foi servido. Grace e o marido elogiaram muito os dotes culinrios de Martha e, quando se retiraram, estavam muito satisfeitos.
	Onde aprendeu a fazer um peixe to delicioso?  indagou Simon.
	Na minha casa. Meu pai cozinhava como ningum.  Ela sorriu e perguntou:  O que est pretendendo fazer agora?
	Vou dar alguns telefonemas.
	Ser que poderia me emprestar um livro? Dormi muito  tarde e estou sem sono.
	Venha, vou lev-la at a biblioteca. L poder escolher o livro que quiser.
	Meu Deus! Quantos livros!  ela disse espantada ao entrar na biblioteca.
	Sinta-se  vontade. Vou voltar para a sala e fazer os meus telefonemas.
	Se quiser, pode ficar aqui. Eu...
	No, fique tranquila.  Simon saiu.
Durante alguns minutos, Martha apenas olhou para os livros. Depois, escolheu um romance que lera h muito tempo e se sentou num confortvel sof.
Uma hora mais tarde, quando Simon entrou na biblioteca, viu que ela estava chorando.
	O que foi que aconteceu?
	Nada.
	Como no aconteceu nada? Voc est chorando.
	Sempre me emociono quando leio um bom livro. Mas me diga: conseguiu fazer os telefonemas?
	Felizmente, sim. Mas demorei muito falando com o Japo. O duro  que no resolvi nada. Logo, logo terei que ir para l.
	Voc conhece o Japo?
	J estive l vrias vezes.
  Mas que inveja... Adoraria conhecer o Japo.
	Por que no viaja para l comigo?
	No d. Tenho muito trabalho quando chegar a Londres.
	Eu poderia dar um jeito nisso.
	No, Simon, no quero que interfira no meu trabalho.
	Mas voc disse que...
	Eu sei o que eu disse. Acontece que, mesmo no sendo fantica pela minha profisso, preciso muito daquele trabalho.
	Tudo bem. No vou discutir com voc. Que tal agora tomarmos um ch? Eu preparo.
Simon no lhe deu tempo de responder  sugesto. Saiu a biblioteca e s voltou algum tempo depois.
	O que  isso na bandeja?
	Umas bolachinhas da regio. Eu adoro essas bolachinhas.
	Mas depois de tudo o que eu comi na hora do jantar...
	Voc no comeu tanto assim, Martha.  Ele serviu-lhe uma xcara de ch.  Vamos, experimente as bolachinhas.
	S uma.
	Certo.  Encantado, Simon ficou observando Martha levar a bolacha  boca.  E que tal?
	Fantstica! Vou querer mais uma.
	Eu sabia! Eu sabia que voc ia gostar.
	Acho que nem minha me faz uma bolachinha melhor que essa.
	A Esccia  tradicional pelas suas bolachas.
	Alm do usque,  claro.  Ela sorriu.
	Alm do usque,  claro...
	Voc fica incrivelmente linda quando sorri dessa maneira to descontrada.
Martha sentiu-se muito constrangida com o elogio.
	Quando eu a conheci em Sidney jamais poderia imaginar que fosse to tmida.
	E... eu sou muito tmida mesmo.
	Me conte mais um dos seus segredos  Simon pediu.  Timidez no vale. Descobri isso sozinho.
	Eu no tenho segredos, Simon.
	Tem, tem sim. Todo mundo tem os seus segredinhos.  Ele fez um gesto largo com as mos.  Tudo bem, ento, eu vou lhe contar um segredo. Estou morrendo de vontade de pedir que se case comigo, mas no sei se devo.
Martha, que acabara de levar a xcara  boca, quase derramou todo o ch sobre a roupa.
	Pelo jeito eu assustei voc.
Ela no respondeu ao comentrio.
	Martha, voc tem certeza de que ouviu o que eu lhe disse?
. E voc ainda pergunta?
	E ento? O que achou do meu segredo?
	No sei o que dizer. Voc s pode estar brincando.
	Se eu me casasse com voc, tudo ficaria resolvido.
	Tudo?
	E. Tudo. Se ns dois nos casssemos, voc no ficaria com medo que eu, um dia, pudesse abandon-la de novo. No  simples?
	No... para mim no  nada simples.
	Por qu?
	No sei se ns nos amamos.
	S por causa disso voc no acha simples?
	E voc acha pouco, Simon?
	Vamos l, me diga: que ideia voc faz do amor?
	Posso lhe assegurar que no  a mesma qu a sua.
Simon serviu-se de uma xcara de ch e sentou-se ao lado dela.
	Se no  amor, que tipo de sentimento  esse que impediu que qualquer homem se aproximasse de voc depois que nos separamos, h trs anos?
	Isso no  problema seu  Martha se apressou em dizer.
	E problema meu, sim.
	Falar em casamento assim, de repente,  o mesmo que dizer: j que no posso t-la sem nenhum tipo de compromisso, eu me caso com voc!
	E  exatamente isso que est acontecendo. No sei o porqu, mas tenho a impresso que  isso mesmo que voc est querendo.
	Eu... eu...  Ela estava espantada com tanta sinceridade.
	Minha querida Martha, deixe o orgulho de lado. Eu a desejo e voc me deseja. E eu j fiz de tudo para conseguir conquist-la...  Simon colocou a xcara que Martha segurava
e a dele sobre a bandeja.
Martha sabia que jamais na vida correra tanto perigo. Sentia-se indefesa, prestes a se entregar a um homem que estava disposto a no medir consequncias para possu-la.
"Mas voc tambm o deseja, moa", ela se dizia em pensamento. "Simon Macquire se tornou a sua referncia masculina. Jamais se entregar a ningum se no a ele."
	O que foi?  Simon perguntou, se aproximando mais dela.
	Estou me sentindo confusa.
	Martha, eu estava brincando: nunca me casaria com uma mulher que teme me pertencer, se entregar a mim. Apesar disso, gostaria que pensasse um po-uco na nossa situao. Acho uma grande loucura ficarmos resistindo tanto a essa fora que nos une.  Simon lhe deu um beijo na testa. Involuntaria mente, ela estremeceu e perguntou:
	E tem que ser essa noite?
	No, no tem que ser essa noite. Vai acontecer quando se sentir preparada. Ser um grande passo na sua vida.
	Eu sei, eu sei disso...  Ela apoiou a cabea contra o peito forte.
Martha ficou ali, aconchegada junto a Simon, pensando. Ela o havia desejado desde que o vira pela primeira vez. Mas no era s desejo que sentia por aquele homem; era amor, muito amor.
	Por que voc ficou to calada?
	Acho que estou querendo beijar voc.
	 mesmo?  Ele sorriu.  Ento, por que no me beija?
Martha ergueu a cabea e aproximou os lbios do dele. Era a primeira vez que tomava a iniciativa de beij-lo. E estava gostando das reaes que provocava nele. De repente, assustada, ela se afastou um pouco.
	Continue, Martha, continue...
	Eu... eu estou com medo.
	O que est sentindo  medo de voc, no de mim...
Martha voltou a beij-lo e descobriu que no queria mais pensar, no queria mais esperar.

CAPITULO VI

Martha abriu os olhos e se aconchegou junto -ao corpo de Simon. Tudo havia acontecido to rpido... Na biblioteca, ela continuara a beij-lo e, aos poucos, comeou a sentir-se forte, dona da prpria vida, dona do prprio destino. Depois, tinha se levantado e puxado Simon para o quarto amarelo.
	Martha, o que est pretendendo?  ele havia perguntado quando j se encontravam ao lado da cama.
	Quero voc, Simon. Quero voc como nunca quis nada no mundo...
	Acho sua atitude meio precipitada. Ns temos tempo, ns...
	No, eu quero voc. Agora.  E ela voltara a beij-lo.
Depois... Depois tudo havia se precipitado e, finalmente, Martha havia aprendido o que significava pertencer a um homem de corpo e alma.
	Voc est acordada?
	Estou.
	E est se sentindo bem?
	Muito, muito bem.
	Que bom...
	E voc?  ela quis saber.
	Estou meio preocupado com voc, Martha.
	Voc no tem com que se preocupar. Eu quis, quis muito que isso acontecesse. No podia continuar adiando o inadivel.
	Eu machuquei voc?
 No, voc foi muito cuidadoso, muito delicado comigo. E s posso lhe agradecer por isso. Ele a puxou contra si.
Martha deu um profundo suspiro. Parecia que estava sonhando. "Quando eu sa de Londres, s queria esquecer Simon. E agora, agora estou com ele na cama... E ns fizemos amor de uma maneira linda..."
	Foi um longo caminho que tivemos de percorrer, no foi?
	Foi,, sim. Um longo caminho.
	Estou profundamente arrependido, Martha.
	De qu?  Ela ergueu a cabea e o fitou nos olhos.
	Pela maneira como a tratei trs anos atrs em Sidney. No podia ter sido to grosseiro. No se pode tratar pessoa alguma como eu a tratei.
	 verdade. Mas aquilo pertence ao passado.
	... Pertence ao passado. Mesmo assim a minha atitude foi injustificvel. Eu me sinto em dbito com voc.
"Por qu?" Ela no entendeu o que Simon queria dizer com aquelas palavras. Mas no ousou fazer a pergunta em voz alta.
Dois dias depois, Martha e Simon, de mos dadas, caminhavam s margens do lago.
	Pelo que me disse, voc gosta muito de caminhar Simon comentou.
	Gosto, sim. Muito. Mas isso nada tem a ver com a minha profisso. Desde que era bem garotinha, gostava muito de andar. Minha me dizia que, se eu no tomasse cuidado, iria gastar as solas dos meus ps.
	Ela dizia isso? E voc?
	Eu sabia que ela estava brincando.
	Acha que qualquer deslize pode fazer mal para a sua imagem?  Simon a segurou pelos ombros e a encarou.
	No sei, acho que sim.
	D uma olhada a sua volta. O que se v?
	Um lugar maravilhoso, sem ningum num raio de quinhentos metros.
	Tem certeza?
	Tenho.
	Ento eu posso beij-la?
	Ah, ento  isso...
	Perguntei se posso beij-la, Martha.
	Sinta-se  vontade, senhor.
E Simon a beijou intensamente.
	Acho melhor eu parar. Embora esse lugar no seja l muito povoado, no acho conveniente continuar.
	No acha conveniente por qu? Por causa da minha imagem pblica?
	No, senhora!  Ele beijou-lhe o nariz.  Acontece que para fazer o que est passando pela minha mente...
	Simon...  Martha ficou vermelha.
	No se preocupe, no faria nada sem a sua permisso.
Naquele instante, Martha descobriu duas coisas: que t-lo ali to prximo, a fit-la daquela maneira sensual, a deixava com as pernas bambas, e que, se no tomasse cuidado, passaria a se comportar como uma garota deslumbrada e muito desajeitada. Tentando aparentar uma frieza que estava muito longe de sentir, ela respondeu:
	Permisso concedida, sr. Macquire.
Simon ergueu as mos devagar e as passou pelos cabelos de Martha. Em seguida, disse num tom baixo de voz:
	Se o que desperto em voc  algo semelhante ao que desperta em mim, acho que a gente vai continuar se dando muito bem.
  mesmo?  ela tentou sorrir.
	No precisava ficar sem graa.
	Me desculpe, eu s tenho medo de parecer desajeitada...
	No, voc no  nada desajeitada. Gosto muito de seu jeito de ser.
	Bem... agradeo as suas palavras.  Ela deu um profundo suspiro.
	O que foi?
	Estou fazendo um esforo tremendo para no sair correndo para casa.
	Por qu?
	Porque fiquei muito inibida com o que voc me disse.
	Se voc sair correndo, eu corro atrs de voc.
	Eu sou mais veloz.
	 nada.  Ele colocou um dos braos sobre os ombros delicados.  Vamos, ento?
A caminho de casa, os dois conversaram pouco e um clima de muita sensualidade os envolvia. Mas ao entrarem na sala, Grace, aflita, quebrou aquele clima:
	Algo est acontecendo, sr. Macquire. O fax no pra de funcionar, o telefone no pra de tocar. E o pior  que, quando atendo, no entendo absolutamente nada. As pessoas s falam em francs, e nesta lngua eu s sei dizer oui.
Simon deu uma olhada para Martha e ela entendeu: ele no havia gostado de chegar em casa e ter negcios para resolver.
	Martha, por que no descansa um pouco antes do jantar?
 Simon sugeriu.  Pelo jeito vou ter que passar um bom tempo ao telefone.
	Acho uma excelente ideia  Grace concordou imediatamente.  V descansar, Martha, eu levo uma xcara de ch l no quarto para voc.
Ao terminar de tomar o ch, Martha estava pensando em Grace. A governanta havia percebido o que se passava entre ela e Simon. Ele no fizera a menor questo de esconder que estavam se relacionando sexualmente e parecia no estar sentindo o menor constrangimento.
	Por qu?  ela se perguntou.  Por que tenho a sensao de que tanto Grace quanto Ivete esto dispostas a fazer de tudo para que eu fique com Simon? s vezes me parece que
as duas querem, de todo jeito, arrumar uma esposa para Simon.
Naquele dia, na hora do almoo, Ivete telefonara da Frana e havia dito a Martha que ficasse na Esccia o tempo que quisesse.
"Ser que estou imaginando coisas? No sei... Ivete  to excntrica que para ela tudo  possvel. E Grace? Por que est to feliz com a minha presena nesta casa? Bem, acho que Grace est agindo assim porque no deve ter outra opo. Acho que ela jamais ousaria dizer que no concorda com o tipo de relao que mantenho agora com Simon. E... deve ser isso..." Martha continuou pensando, mas achou que estava sendo injusta com a governanta:
"No posso negar que Grace goste de mim. Eu sinto isso. Mesmo assim, a sensao continua: para mim Ivete e ela esto querendo conseguir uma esposa para Simon, sim. Mas por qu?"
Martha continuou pensando sobre aquela situao e, no chegando a nenhuma concluso, acabou dormindo.
Por volta das seis horas da tarde, Martha acordou. A casa estava bastante silenciosa. Ela levantou-se e foi tomar um banho. Quando j estava se enxugando, a porta do banheiro se abriu.
Confusa, Martha colocou a toalha na frente do corpo.
	No faa isso  Simon pediu baixinho.  Voc tem um corpo lindo.
Profundamente envergonhada, ela continuou segurando a toalha contra o corpo.
	Voc  linda, sabia? Muito linda... Infelizmente, no poderei fazer amor com voc.  Ele se aproximou e beijou-lhe os lbios.  Deixe-me terminar de enxug-la.
	No, Simon, eu...
	No precisa ficar to envergonhada. Enquanto estiver fora, quero guardar a imagem da sua nudez na minha memria.
Voc vai viajar?
	Vou. Para Edimburgo.  Ele tomou-lhe a toalha das mos e comeou a pass-la pelos ombros nus.  Gostaria muito que fosse comigo, mas no vai ser possvel. Apareceu uma reunio de urgncia e no terei tempo para lhe dedicar.
	Quando voc viaja?
	Logo mais. S estou esperando o helicptero chegar.  Ele entregou-lhe a toalha.  Voc promete que vai ficar bem? J pedi a Grace que cuide de voc.
	Ela vai cuidar, com certeza. Mas quando  que voc estar de volta?
	Amanh. Mas ainda no sei a que horas. Eu...  O barulho do helicptero interrompeu-lhe a frase.  Bem, agora eu preciso ir. At amanh.
Aps um longo beijo, Simon se foi. Martha, sem a presena de Simon naquela casa imensa, sentiu-se um tanto desprotegida. Nem o carinho e a dedicao de Grace a tranquilizaram. Mas no queria ir embora. Sabia que precisaria viver aquela situao at o fim.
Na dia seguinte, aps o caf da manh, pegou uma vara e foi pescar. Mas, pela primeira vez na vida, no pegou nenhum peixe. Por volta do meio-dia, voltou para casa. Grace a esperava para servir-lhe o almoo.
	E como foi a pescaria?  a governanta quis saber.
	Pssima.
	No pegou nada?
	Nada, nadinha! Acho que retiraram todos os peixes do lago  Martha brincou.
	Quer que eu lhe sirva o almoo agora?
	Daqui a uns quinze minutos. Antes quero tomar um banho.
Meia hora mais tarde, Martha terminava de almoar.
	De novo voc comeu pouco, Martha.
	Impresso sua, Grace.
	No  impresso, no. Por que no experimenta um pouco do meu risoto? Voc nem tocou nele.
	Quem sabe na hora no jantar? Agora estou mais do que satisfeita.
	Menina... tem que tomar mais cuidado com sua sade.
	No se preocupe, estou muito bem de sade.
	E que voc vai fazer agora? Descansar um pouco?
	 o que eu estava pretendendo fazer.
	Otimo. Descanse. Voc ficou muito tempo ao sol.
Martha foi para o quarto e no conseguiu dormir. Resolveu, ento, ir ler na biblioteca e, por mais que tentasse, tambm no conseguiu se concentrar na leitura. Resolveu, ento, dar uma volta pelo jardim onde encontrou Grace, sentada num banco sob uma rvore, com uma panela de legumes nas mos.
	J est preparando o jantar?
	Quero fazer uma sopa fantstica para voc. Estou preocupada com a sua alimentao, Martha.
	J lhe disse, Grace: voc no tem com que se preocupar.  Ela sentou-se ao lado da governanta.
	O sr. Macquire  quem gosta desta sopa.
	Voc o conhece h muito tempo?
	Desde que ele era criana.
	Tanto tempo assim?
	Para voc ver... Para mim, at hoje, ele no cresceu. Sabe como ? Coisa de velha...
	Percebi que Simon gosta muito de voc. Eu tambm adoro aquele menino.
Martha riu. Pelo jeito, Grace realmente via Simon como um menino.
- Pena que a vida dele no tenha sido l muito feliz. E sempre difcil para uma criana viver num lar onde no existe amor. Acho que esse foi o motivo de ele ter se tornado to frio, to cnico. E depois, quando finalmente encontrou uma garota boa pela qual se apaixonou, aconteceu aquilo...
Martha ficou calada. Grace, no entanto, perdida em pensamentos, continuou:
	Meu Deus, que tristeza! Uma moa to nova morrer daquele jeito... Parece que foi ontem, e j faz quatro anos. E faltava apenas uma semana para os dois se casarem. O carro de Mary era novo, novinho, e a barra de direo foi quebrar logo numa curva. Simon ficou desesperado. Os dois se amavam tanto. Dava para sentir o amor que os unia. Depois de Mary, ele nunca mais foi o mesmo: se tornou muito mais duro com as pessoas e consigo mesmo.
	E Sandra? Voc a conhece?
	Claro que sim. Mas o meu Simon nunca teve nada a ver com aquela mulher.
	E comigo? O que acha da relao de Simon comigo?
	Ainda no sei dizer, Martha. Sinto que ele gosta de voc, mas no posso afirmar que ele a ama. Mas eu gostaria muito, muito que isso estivesse acontecendo.
	Por qu?
- Adoraria ver o meu Simon casado. Meu marido e eu nunca tivemos filhos. Se Simon se casar tenho esperana de logo ver um monte de crianas correndo por essa casa, por esse jardim. Vou me sentir uma verdadeira av. A terei para quem. cozinhar: farei bolos, doces...
	Grace, ser que posso lhe pedir um favor?
	Qualquer um, Martha: Gosto de voc. Gostei de voc assim que a vi.
	No sei se devo... Estou me sentindo meio envergonhada.
 Envergonhada para pedir que eu lhe fale sobre Mary?
	...  isso...  Martha admitiu.
	Pois no se envergonhe, minha filha, no se envergonhe... Mary era como um raio de sol: alegre, comunicativa e muito inteligente. No era to linda como voc, no. Mary era mais baixa, no tinha um rosto e um corpo to perfeitos, mas tinha uma fora interior muito grande. Ningum ficava infeliz ao lado dela. Mary falava vrias lnguas e era uma pessoa muito bem informada. Ela era jornalista.
	Jornalista?
	. Mary trabalhava num dos mais famosos jornais de Londres.
	Sei...
Martha estava se sentindo meio perdida. Jamais havia imaginado que, um dia, Simon estivera para se casar. E ainda com uma mulher brilhante!
	No faa isso, Martha.
	O qu?  Espantada, ela fitou a governanta.
	No se compare com Mary. Voc tambm  uma mulher muito interessante. J disse que gostei de voc assim que a vi. E, acredite, isso  muito difcil de acontecer.  Grace se levantou.  Vou entrar. Voc me acompanha?
	No, vou ficar mais um pouco aqui fora.
	Certo, mas no fique se preocupando com besteiras. Se quer saber,  a primeira vez em quatro anos que vejo o meu Simon sorrir.
Grace se afastou. Mesmo contra a vontade, Martha continuou pensando em Mary.
"Que tragdia. Ele deve ter sofrido muito. Deve ter sido terrvel ver, de repente, todos os planos, todos os sonhos rurem por terra... E Mary deve ter sido mesmo uma mulher especial. Se no fosse, Simon jamais iria casar com ela... Grace me pediu para no ficar me comparando com Mary. Mas  muito difcil no fazer isso. De repente,  como se uma sombra estivesse me espreitando. A sombra de uma mulher que, pelo jeito, s tinha qualidades."
Martha se levantou e foi dar um passeio pelas redondezas. Ao voltar, no final da tarde, Grace lhe comunicou que Simon havia telefonado para avisar que s voltaria no dia seguinte.
Triste, com muitas saudades, Martha passou o resto do dia muito deprimida.  noite, aps ver um filme na televiso que falava de amor, ela foi dormir. Mas s conseguiu conciliar o sono altas horas da madrugada.
No dia- seguinte, aps o almoo, Martha resolveu sair de novo para passear.
	Mas parece que vai chover, querida  Grace a advertiu.
- No tem importncia. Adoro caminhar na chuva.
	Ento, pelo menos, leve uma capa.
	No precisa, Grace.
	Mas  claro que precisa.  A governanta correu pegar uma capa e a entregou a ela.
	Obrigada pelo cuidado, Grace.
	No quero que nada da mal lhe acontea.
Quando j andava pelos campos, as palavras que Grace havia lhe dito voltaram-lhe  mente: "No quero que nada de mal lhe acontea..."
	Tambm, depois do que aconteceu a Mary... Ser que  por causa do passado de Simon que Grace e Ivete fazem de tudo para v-lo casado? Porque agora eu sei que no estou maluca. As duas querem muito v-lo unido a algum. E isso deve ser para que ele enterre o passado de vez.
Confusa e muito preocupada, Martha continuou caminhando. Mas estava to absorta em seus pensamentos que nem conseguiu apreciar a beleza da regio.
Por volta das quatro da tarde, desabou uma grande tempestade. Por sorte, Martha encontrou um casebre e se abrigou. Trmula, por causa do vento frio, ela ficou num canto do casebre esperando que a chuva diminusse.
	Eu no deveria ter sado de casa. Deveria ter aceitado a sugesto de Grace. Eu detesto raios e troves. Ainda mais sozinha...
Martha, com muito esforo, controlou o medo. Fingiu que era criana e o que vivia no passava de Uma histria contada por algum. Mas a chuva no passava e os troves pareciam cada vez mais fortes. Martha comeou a chorar e, depois, acabou dormindo.
Quando acordou, o dia estava escurecendo e a chuva havia diminudo bastante. Ela fechou a capa e caminhou pelos campos alagados.
	Graas a Deus que voc chegou  Grace disse assim que a viu.  Pensamos que algo de grave tivesse lhe acontecido.
	Pensamos?
	O sr. Macquire chegou uns minutos antes da tempestade e acabou de sair para procur-la. Ele est transtornado. V tomar um banho, minha filha.
	E Simon?
	Logo ele estar de volta. No se preocupe, ele conhece muito bem esta regio.
Martha, j de banho tomado, abriu a porta do banheiro, no instante em que Simon abria a do quarto.
	Simon!  Ela correu para abra-lo.
   Que bom que voc est bem. Tive medo que algo pudesse ter lhe acontecido.
	Eu me abriguei num casebre at. a tempestade passar.
	Voc andou chorando?
	Um pouco.
	E por qu?

	Sei que  criancice, mas tenho muito medo de tempestade.
	Eu entendo... Eu entendo.  Simon beijou-lhe os olhos.  Deveria ter ficado em casa.
	Pois ...
	Senti muitas saudades suas.
	Verdade?  ela o fitou desconfiada.
	No acredita em mim?
	 um pouco difcil, Simon.
	Por qu?
	No sei... Acho que l em Edimburgo voc no teve muito tempo para pensar em mim.
	A que voc se engana. Ontem, quase peguei o helicptero s para vir aqui fazer amor com voc.
	Est vendo? No  bem de mim que voc sentiu saudades...  ela comentou, meio decepcionada.
	Martha, por que isso agora? Est arrependida do que aconteceu conosco?
	No, no estou arrependida, mas preferia que dissesse que gostaria de ter vindo aqui para me dar um beijo.
	E existe alguma diferena?
Claro que existe, Simon. Voc disse que queria vir aqui fazer amor comigo. E existe uma diferena imensa entre fazer amor e um beijo. Ou no?
	Jamais, jamais poderia imaginar que voc fosse uma mulher romntica.  Ele riu.
	Acho que ainda no tirou da cabea a mulher que conheceu em Sidney h trs anos. E eu estava representando, Simon, me fazendo passar por algum que nunca fui.
	Eu sei disso.  Ele balanou a cabea de um lado para o outro.  Me desculpe...
	Se tiver que viajar de novo, quero que saiba que prefiro voltar para Londres.
	Martha, no fique to triste.  Simon a abraou.  S fiz esta viagem porque fui obrigado. Por mim teria ficado aqui com voc.
	Tem certeza de que no est mentindo?
	Tenho certeza, sim.  Ele a beijou nos lbios e toda a insegurana de Martha desapareceu como por milagre.  Agora eu vou tomar um banho. Espero voc l embaixo para jantar daqui a uns vinte minutos. Combinado?
	Combinado.
Ao se ver sozinha no quarto, Martha retirou o roupo que estava usando e vestiu um jeans cor-de-rosa e uma camiseta branca de mangas compridas. Depois, secou os cabelos, fez uma leve maquilagem e desceu para o jantar.
	Voc parece uma garotinha de quatorze anos  ele disse ao v-la.
	Pois eu estou me sentindo uma garotinha de trs anos  Martha respondeu.
	E mesmo? E posso saber por qu?
	Acho que foi o estresse que passei naquele casebre. Ainda me sinto meio trmula.
	Posso servir o jantar?  Grace interrompeu-lhes a conversa.
- Pode sim, Grace, por favor... Adoraria tomar uma bela sopa.
	Pois ontem eu fiz aquela que o senhor gosta.
	E no sobrou nem um pouquinho para mim?
	Sobrou, sim, quase tudo. Essa mocinha come muito pouco.
	Quer dizer, ento, que hoje vou comer a sopa mais maravilhosa do mundo?
	Com toda certeza.
Durante todo o jantar, Simon tratou Martha com muita ateno e carinho. Contou-lhe o motivo que o levara para Edimburgo s pressas, a dificuldade que tivera para negociar um contrato com um comerciante muito importante da Esccia e tornou a repetir que. tinha sido muito difcil ficar longe dela.
	Quase peguei o helicptero. Queria mesmo vir aqui para...  Ele fez uma pausa e s depois completou a frase:  Para lhe dar um beijo.
	Mentiroso. No foi isso o que disse antes.
	Pois  o que estou dizendo agora.  Ele sorriu de maneira brincalhona e procurou algo no bolso interno do palet. Em seguida, entregou-lhe uma caixinha comprida.   para voc.
Martha abriu a caixinha e exclamou:
	 lindo...  lindo, Simon.
	 apenas uma lembrancinha.
	Voc chama um relgio de ouro de apenas uma kmbrancinha?
	Acontece, Martha Winters, que voc merece muito mais...
	Obrigada, muito obrigada.
Ao terminarem de jantar, os dois foram para o quarto e fizeram amor.
Na manh seguinte, Martha acordou abraada a Simon.
"Meu Deus, o que ser da minha vida se ele resolver me abandonar? No sei, no sei o que vou fazer..." Martha deu um profundo suspiro. "Estou confusa, muito confusa. Ontem  noite, quando Simon me amou, eu o senti meio distante. Apesar de ter sido adorvel comigo, tenho certeza de que estava meio distante... No foi como das outras vezes. Eu acho que deveria pegar as minhas coisas e ir embora dessa casa antes que ele me abandone. No fundo, Simon nunca esqueceu a imagem que tinha de mim em Sidney e, principalmente, nunca esqueceu Mary. No sei se suportaria continuar sendo comparada a ela..."
	Bom dia, Martha, querida!
	Bom dia, Simon.
	O que est acontecendo?
 Nada.
	Estou sentindo voc meio apreensiva, Martha.
	 impresso sua.
	No, no  impresso minha.
	Bem,  foi a primeira vez que dormimos a noite inteira juntos e...
	E est preocupada com Grace.
	Estou.  Aquilo era apenas uma parte da verdade.
	Grace e o marido esto cansados de saber que somos amantes.
	... realmente voc no  nada romntico.  Martha, muito insatisfeita, sentou-se na cama.
	Aonde voc vai?
 Vou me vestir.
	Antes quero que responda a uma pergunta.
	Pois faa a pergunta  ela pediu, irritada.
	Quer se casar comigo, Martha Winters?

CAPITULO VII

Martha, perplexa, estava olhando para Simon. L Voc ouviu o que eu disse? Eu lhe perguntei se quer se casar comigo.
	Eu ouvi.
	E ento? Qual  a resposta?
	Minha resposta  no!
	No? Como assim?
	No  no. Ser que ainda no aprendeu o significado da palavra no?
	No estou entendendo voc. Como pode estar dizendo no ao meu pedido?
	Simon...  Martha percebeu que estava com as mos fechadas e sua voz era emitida num tom acima do normal, tamanha era a tenso que sentia.  Por que est fazendo isso?
	Fazendo o que, Martha?
	Por que voc resolveu me pedir em casamento? Ou ser que est brincando de novo?
	No, eu no estou brincando  ele respondeu, irritado.  H muito tempo no falava to srio na minha vida.
	Ento me diga o motivo que o levou a isso.
	Voc no vai se sentir to bem com nenhum outro homem. Eu sei disso e voc tambm.
	Pare! Pare com isso!  Martha, de repente, tinha a sensao de que vivia um pesadelo.  Falando dessa maneira, voc est denegrindo tudo o que aconteceu conosco. Vamos, me diga: por qu?
	Voc  quem est denegrindo a nossa relao!
	Eu? Como pode dizer uma coisa dessas?
	Posso, sim senhora! No acha que essa recusa em se casar comigo depois de ter se entregue a mim, no  uma maneira de denegrir o nosso relacionamento? No se esquea que voc  apaixonada por mim h trs anos!
Martha no sabia o que dizer. Por que, de uma hora para a outra, Simon resolvera pedi-la em casamento?
	Algo deve ter acontecido. Por favor, me diga o que foi.
Nada,do que est acontecendo faz o menor sentido.
	Para mim faz muito sentido, sim. Por que adiar o inevitvel?
	Quer dizer que voc encara a situao como inevitvel?  Martha deu um salto da cama e vestiu o roupo.  Voc v tudo com muita frieza, Simon Macquire. Inevitvel... O que est pensando que eu sou, hem?
	Uma mulher que eu respeito muito.
	Voc no me respeitava at alguns dias atrs.
	Mas agora eu a respeito. Muito. Pode acreditar.
	Se eu me casar com voc, daqui a uns meses estaremos nos odiando.
	Isso no vai acontecer.
	J sei! J sei porque voc resolveu se casar comigo de repente: chegou  concluso de que jamais ir encontrar uma substituta para o grande amor da sua vida. Ento, como sou uma mulher apaixonada... Nada mais fcil, no?
	Eu sabia. Eu sabia que esse era o motivo para tanta irritao. Hoje pela manh eu falei com Grace.
	Como voc falou com Grace? Quando acordei voc estava dormindo.
	Acontece que me levantei bem cedo e desci para tomar caf. Depois voltei para c.
	E o que Grace lhe disse?
	Ela me disse que se excedeu nos comentrios e acabou lhe contando sobre Mary.
	No posso competir com uma morta.
	Voc no tem que competir com ningum.  Simon saiu da cama e a abraou.  Com ningum.
	No posso aceitar o seu pedido de casamento.
	Martha, no quero passar os prximos trs anos fazendo de tudo para convenc-la que seremos muito felizes juntos.  Ele a beijou com carinho.  Oua, Martha, tenho certeza de que tudo vai dar certo. Ns vamos nos respeitar e eu sempre serei fiel a voc. Por favor, deixe-me provar que estou falando a verdade.
Simon voltou a beij-la, agora com muito mais intensidade.
	Eu...  ela sussurrou.  Eu no sei o que dizer.
	Diga sim, apenas sim.  Simon abriu-lhe o roupo e tocou-lhe os seios.  Da minha parte, prometo fazer tudo para que no se arrependa.
	E se eu insistir em dizer no?
	Ento... ento, no teramos a menor condio de continuar com a nossa relao. Mas por que continuaria insistindo
em dizer no?
	Acho que... poderamos nos conhecer melhor. Eu... Martha hesitava.
	Voc acha isso necessrio?
	Acho. Acho, sim.
	O que mais gostaria de saber a meu respeito? Ns gostamos da companhia um do outro.  Ele mordeu o lbio inferior e perguntou:  Acha que ficaria um tempo pescando na companhia de um homem de quem no gostasse? No..., no ficaria.
	Mesmo assim eu acho que...
	Martha  Simon a interrompeu , se existe algo em meu comportamento que desaprova,  s dizer. Voc diz e eu farei de tudo para me corrigir.
	Simon, por favor, pare com isso  Martha pediu.
	Estou falando com seriedade, acredite. Sei exatamente em que est pensando.
	 mesmo? Ento me diga em que estou pensando.
	Garanto que est imaginando o tipo de vida que levaria. Pois eu vou lhe dizer: como eu viajo muito, no incio, acho que deve permanecer morando exatamente onde est. L ter a companhia de Ivete quando eu estiver fora. Mas quando eu estiver em Londres, a sim, voc fica comigo no meu apartamento.
	Simon, eu...
	Ainda no terminei. Me d mais um segundo: se preferir, poder ficar o tempo todo comigo. Viajaremos juntos. Neste caso, infelizmente, sua profisso ficar prejudicada. Mas depois, quando decidirmos formar uma famlia, viremos morar aqui. Eu amo este lugar. A, organizarei a minha vida para passar o maior tempo possvel aqui. Com fax, telefone e computador, no ser difcil. Se me organizar direitinho posso dirigir todos os meus negcios daqui, sem sair do meu escritrio. Essa casa est louca para ter crianas correndo para cima e para baixo. O que voc acha disso tudo? Por favor, Martha, case-se comigo.  Certo. Eu me caso com voc.
O casamento aconteceria em cinco dias. Martha tinha a sensao de que vivia um sonho. Um lindo conto de fadas. E ningum, exceto Grace e Picton, marido da governanta, estava sabendo o que iria acontecer.
A cerimnia seria realizada numa pequena capela das proximidades. Depois, o juiz os estaria esperando e realizaria a cerimnia do civil. Grace estava exultante e tinha ficado mais exultante ainda quando soube que Martha havia encomendado o vestido de noiva numa loja muito famosa de Edimburgo.
Os dias passaram muito rapidamente. Quando, na vspera do casamento, o vestido chegou, Simon perguntou:
	E ento? No vai me mostrar o vestido?
	O meu vestido de noiva?  Martha se fez de ofendida.  Mas de jeito nenhum.
	Por qu?
	Voc s o ver quando eu estiver entrando na igreja de braos dados com Picton.
	Isso  uma injustia  ele disse, fingindo-se de zangado.
	E quem disse que sou uma pessoa justa?  Martha o provocou.  Quem no vai ficar nada satisfeita  a Ivete.
	Com o qu? Com o fato de no termos avisado que vamos nos casar?
	No. Sua tia vai ficar uma fera quando souber que o meu vestido de noiva no foi concebido por ela.
	Com toda certeza.  Simon fez uma pausa e depois continuou:  Estou gostando muito da simplicidade do nosso casamento.
	 mesmo?
	Os preparativos do meu casamento com Mary foram bastante diferentes. Ns amos nos casar numa igreja imensa de Londres. A me de Mary tinha contratado um coral de trinta vozes, msicos... Voc nem imagina como Mary e eu estvamos tensos.
	Sei...
	 Fico contente em saber que vamos nos casar numa igreja pequena e linda. O que importa  que seremos muito felizes.  Ele a beijou.  Eu prometo isso a voc, futura sra. Macquire: eu a farei muito feliz.
Na noite que antecedeu o casamento, Martha quis dormir sozinha. Simon no gostou da ideia, mas teve que acabar concordando. E ela se sentiu muito insegura durante a madrugada. Temia que algo no desse certo durante a cerimnia. Temia o futuro. Temia tanta precipitao e, principalmente, que Simon se arrependesse daquele passo. Vendo que seria impossvel resolver o futuro, Martha dormiu um sono profundo e acordou muito bem na manh seguinte. O casamento estava marcado para as dez horas. Ela levantou-se, tomou um longo banho e teve que admitir que estava feliz; feliz como nunca estivera antes.
Assim que Martha ligou o secador, ouviu uma batida na porta e a voz de Grace:
	Posso entrar?
	Entre, querida, entre.
	E como vai a noiva?
	Meio tensa, mas feliz.
	Sei o que  isso. Na vspera do meu casamento, no preguei o olho a noite inteirinha.  A governanta riu.  Fiquei pensando que o meu Picton pudesse desistir na ltima hora.
	Acho que todas as noivas pensam a mesma coisa.
	Mas voc me parece muito bem.
	Estou me sentindo tima, apesar da tenso.

	Trouxe o seu caf da manh.  Grace mostrou-lhe a bandeja que tinha nas mos.
	Voc  um amor.
	O carro vir buscar voc e o meu Picton s nove e meia.
	Voc vai com Simon?
	Vou, sim.
	Ento, s nove e meia estarei pronta.
	Eu quero ajud-la a vestir-se, Martha. Ser que voc me permite?
	Mas  claro que sim.
Grace colocou a bandeja sobre a cama, deu um abrao em Martha e comeou a chorar. 
	Obrigada, querida. Hoje  um dos dias mais felizes da minha vida. 0 meu Simon vai se casar com uma moa muito boa. E eu sinto como voc fosse a filha que eu nunca tive.
	Oh, Grace...  Martha tambm no foi capaz de conter as lgrimas.
Martha olhou para Grace e perguntou:
	E ento? Como estou?
	Linda. Voc est linda, minha filha.  a noiva mais maravilhosa que eu j vi.
O vestido longo, em tafet prola, tinha a parte de cima toda rebordada com pequenas prolas no mesmo tom.
	Est at parecendo uma modelo  Grace comentou, e logo viu a gafe que tinha cometido:  Me desculpe, s vezes esqueo quem voc .
	Voc acha que o Simon vai gostar?
	Ele vai adorar.
E Martha pde comprovar as palavras de Grace no instante em que entrou na igreja toda enfeitada de flores. Ao v-la, os olhos de Simon brilharam de alegria.
Aps o casamento, todos voltaram para casa e, no almoo comemorativo, foram servidos por um dos mais afamados bufes da regio.
s quatro horas em ponto, os noivos desciam do helicptero no aeroporto de Edimburgo.
	Voc vai ou no vai me dizer para onde ns estamos indo, Simon?
	Daqui a pouco voc vai saber.
No saguo, ele se aproximou de uma empresa area francesa.
	No acredito!  ela exclamou feliz.
	Pois pode acreditar. Nossa lua-de-mel ser na Frana.
	Que maravilha!  Martha o abraou.
Quando os dois j estavam rumando para Paris, a bordo de um avio imenso, Simon perguntou: .  Voc sabe cozinhar?
	Como assim?  ela o fitou espantada. Simon riu.
	S estou querendo saber se sabe cozinhar.
	Mais ou menos.
	Como assim?  Foi a vez de Simon fit-la espantado.
	Bem, eu sei fazer ovo mexido, ovo cozido e... se me esforar um pouco, tambm sei fritar um bom ovo no azeite.
	No acredito, estou fadado a passar fome.
	 mentira, seu bobo. Sei, sim, cozinhar. E muito bem.
	Que alvio...  Ele deu um longo suspiro.
	Se quer saber, o meu po  imbatvel.
	Voc tambm sabe fazer po? No acredito!
	Pois pode acreditar. Sei fazer vrios tipos de pes.
O vo at Paris no demorou muito. Ao descer na Cidade Luz, Martha estava muito emocionada. Do aeroporto, aps uma volta pela cidade e um jantar num restaurante finssimo, os dois rumaram para o chal que Simon possua em Charente. Para Martha foi uma semana de sonho, e terminou bem mais depressa do que ela gostaria.
	E ento, sra. Macquire? O que achou?  Simon lhe perguntou quando j estavam a bordo do avio, de volta a Londres.
	Foi tudo muito mais lindo do que eu poderia imaginar. Muito obrigada por esse passeio inesquecvel.
	Voc no tem nada que me agradecer.
	Claro que tenho.
	De jeito nenhum. Ser que essa  a nossa primeira briguinha depois de casados, Martha?
	No estou brigando com voc, Simon.
	Pois parece.
A aeromoa interrompeu-lhes a conversa para oferecer-lhes algo para beber.
	Um vinho branco, por favor  Simon pediu.
	O mesmo para mim. . Martha sorriu para a moa.

	Esse vinho  muito bom  ele comentou aps alguns instantes.  Mas Martha, continuando o nosso assunto, no gostei desse seu agradecimento. Ser que no percebe que voc contribuiu muito para que a nossa lua-de-mel fosse perfeita?  por isso que no aceito o seu agradecimento.
	Bem, mas nada disso teria acontecido se no fosse por voc. Portanto, mantenho o meu agradecimento.
Ele bebeu mais um gole de vinho e disse:
	Sei o que est acontecendo... Voc ainda no se sente minha mulher.
"No meu corao eu sinto, sim", ela pensou. "Mas de resto, ainda me sinto profundamente insegura. As vezes tenho a sensao de que vou acordar de repente de um longo e maravilhoso sonho."
	Martha, parece que est a quilmetros daqui.
	O que est tentando fazer que eu diga, Simon?
	Nada. No quero que diga nada. Mas desde que samos de Paris estou achando voc meio tensa.
	Acho que ainda no estou acostumada com tantas mudanas.
	Est arrependida.  isso?
	No, de maneira alguma.
	Relaxe, ento.
	No  fcil relaxar. No conheo o seu apartamento, tenho que enfrentar Ivete... Acho que  por isso que estou tensa.
	No me exclua da sua vida, voc no est mais sozinha.
	Ser que no?
	No, no est.  Ele segurou-lhe o queixo.  Olhe para mim.
Com dificuldade, ela o fitou.
	Pare de se preocupar com besteiras. Ns estamos felizes e isso  o que importa.
	Voc contou a sua tia sobre o nosso casamento?
	Nem a ela, nem a ningum. Esse  um assunto nosso. E, por favor, no se atormente com dvidas, com inseguranas. Voc est gastando energia  toa.  Ele olhou pela janelinha do avio.  Olha! Estamos chegando.
Assim que entraram no txi, Simon perguntou a Martha:
	Para onde prefere ir?
	Gostaria de ir para o meu apartamento.
	Tudo bem, voc manda. Depois ns vamos para o meu.
Quando eles estavam descendo do txi, Ivete apareceu no porto.
	Quer dizer que resolveram aparecer? Pensei que vocs dois tivessem ido para a lua.
	Quase  Simon disse, sorrindo.
	Quase o qu?  Ivete quis saber.
	Depois eu explico. Primeiro quero levar essas malas para dentro.
	Vocs estavam na Esccia?  Ivete perguntou quando j se encontravam na sala.
	No, Ivete, ns estvamos em Paris. Martha e eu nos casamos.
	Vocs o qu?
	Ns nos casamos no sbado passado.
	Ento foi por isso! Liguei vrias vezes para a Esccia e ningum atendeu ao telefone.
	Dei uns dias de folga para Grace e o marido.
 Sentem-se, sentem-se. - Ivete lhes indicou o sof.  E voc se casou vestida de noiva, Martha?
	Casei, sim, Ivete.
	E com que vestido?
	O meu vestido de noiva foi comprado em Edimburgo.
	Se no estivesse to feliz com o casamento de vocs, me sentiria profundamente ofendida. Adoraria ter confeccionado o seu vestido, querida.
	Me desculpe, Ivete.
	No, voc no tem que se desculpar. O que importa  que os dois se casaram e esto felizes. Mas me conte como era o seu vestido.
Martha contou a Ivete no s como era o modelo do vestido, mas tambm como tinham realizado a cerimnia com toda a simplicidade do mundo.
	E o trabalho? Voc vai me abandonar?
	No  isso que estou pretendendo. Se me quiser, por enquanto continuarei trabalhando com voc.
	E vocs vo morar onde?
	Quando Simon estiver viajando, virei ficar no meu velho apartamento.
	Que maravilha! A terei a sua companhia!
Martha acabara de entrar no apartamento de Simon.
	Mas ele  imenso!"
	 grande, sim. Mas nem se compara a minha casa de Mull. Prefiro muito mais aquele lugar.
	Quem decorou esse apartamento?
	Ivete,  claro. E voc acha que ela deixaria a decorao nas mos de outro mortal?  Simon riu.
	Ela tem um gosto muito acurado.  Martha entrou na sala de estar.  As cores esto perfeitas.
	Ivete demorou trs meses cuidando da decorao.
	Trs meses?  Martha perguntou, espantada.
	E no deixou que eu pusesse os ps aqui dentro at que tudo estivesse pronto.
	E onde voc ficou durante esses trs meses?
	No apartamento que voc alugou.
	Quer dizer, ento, que voc tambm j morou l?
	Nunca havia lhe contado?
	Acho que no.
- Venha, quero lhe mostrar o quarto.
	Ser que antes daria para me mostrar a cozinha?
	A cozinha? Por que o interesse especial pela cozinha?
	Acontece que estou com muita fome.
	Meu Deus, que milagre! Pela primeira vez a ouo dizer que est com fome.
	J so quase oito horas da noite, Simon.
	Eu tambm estou louco de fome.  Ele a levou para a cozinha.  Que tal?
	Perfeita.
	O que voc est pretendendo comer?
	Comida, de preferncia.
Simon riu muito da brincadeira de Martha e enumerou-lhe as comidas que estavam no freezer.
	Se quiser comer algo diferente, poderemos ligar para um restaurante e...
	No. Vou querer comer uma pizza.
	Voc comendo pizza  noite? Pois isso merece uma comemorao. Perdeu o medo de engordar?
	Fiz muito exerccio nesta ltima semana.
	Fez, no, mocinha: fizemos.  Simon viu que Martha tinha ficado vermelha.  Adoro quando voc fica envergonhada.
	Eu no estou envergonhada.
	Ah, no?  Ele beijou-lhe a ponta do nariz.  Ento, por que seu rosto est mais parecendo um pimento?
	O meu rosto? Parecendo um pimento? Voc est total mente equivocado.
	Claro, eu estou totalmente equivocado  ele concordou e abriu o freezer.  Uma ou.duas?
	Uma ou duas o qu?
	Pizzas.
	Duas.
	Voc est mesmo com fome.
	E como! Quer que eu prepare as pizzas?
	No, pode deixar. Voc quer pizzas grandes ou mdias?
	Brotinho. Tem?
	Tem. Mas acho melhor assarmos duas mdias.
	Tudo bem.
Enquanto as pizzas assavam, o clima entre os dois continuou muito amigvel. s vezes, Martha sentia uma sensao estranha. Parecia que no pertencia quele local.
"Tudo aconteceu rpido demais", ela se dizia em pensamento. "Essa casa agora tambm  sua!"
	Pronto!  Simon retirou as pizzas do forno.  J podemos comer todas as calorias que precisamos.
	No me fale em calorias, Simon.
Martha estava sentada  mesa. Simon colocou metade de uma pizza no prato dela.
- Que exagero! No vou conseguir comer tanto.
	Vai, mas  claro que vai.
	E se eu no conseguir?
   s no comer, oras.
Simon abriu uma garrafa de vinho tinto. Pouco tempo depois, Martha percebeu que tinha comido a metade da pizza sem o menor problema.
	Aceita mais um pedao?  ele ofereceu.
	Imagine...
	S mais um pedacinho  Simon insistiu.
	No, obrigada.  a primeira vez na minha vida que como a metade de uma pizza.
	Mas foi a metade de uma pizza mdia. E uma pizza mdia das pequenas.
	Mesmo assim foi a metade de uma pizza, o que para mim foi um grande exagero. E voc? Quer que eu lhe sirva mais um pedao?
	E voc ainda pergunta?
Aps terem terminado o jantar, Martha e Simon limparam a cozinha:
	Estou muito feliz com sua presena aqui  ele disse ao abra-la. 
	Muito obrigada, Simon. Tambm me sinto muito feliz por estar aqui com voc.
	No quer conhecer o resto da casa?
	Quero, sim.
Em cada cmodo que entravam, Martha ficava ainda mais perplexa. Tudo era muito luxuoso, de muito bom gosto.
	Agora voc vai conhecer o nosso quarto.  Ele abriu uma porta e Martha se viu diante de uma cama com dossel.
	Que coisa mais linda, Simon.
	Eu sabia que voc ia gostar.
	Ivete  uma grande artista.
	E o banheiro fica ali.  Ele apontou.
	Que timo. Estou louca para um banho.
	Sozinha?
	Se quiser me acompanhar, me dar o maior prazer do mundo.
	Eu prometo, prometo que lhe darei o maior prazer do mundo...
Mais tarde, depois de terem feito amor numa banheira de hidromassagem, os dois se encontravam abraados na cama.
	Martha, voc est dormindo?
	No, estou acordada.
	Quero que se sinta  vontade para mudar o que bem entender aqui no apartamento.
	Para qu? Est tudo perfeito.
	Jamais se esquea que esse apartamento tambm  seu.
	Tudo bem, eu no vou me esquecer.
	Amanh  segunda-feira e precisarei ir para o escritrio.
	Que pena...  Ela beijou-lhe o rosto.  Adoraria prolongar a nossa lua-de-mel eternamente.
	Eu tambm adoraria...
	Ivete disse para eu aparecer no ateli s na segunda-feira que vem.
	E acha que eu no ouvi?
	Ela ficou muito contente com o nosso casamento.
	Eu tambm  Simon a apertou contra o corpo , eu tambm fiquei muito contente...

CAPITULO VIII

Dois dias depois, no final da tarde, Martha estava sentada  mesa tomando ch. O dia fora muito cansativo. A empregada de Simon estava dando muito trabalho: no queria aceitar as ordens da nova patroa.
	Tenho certeza que, com muita pacincia, Claire ir se acostumar comigo  Martha disse a si mesma.
A campainha tocou.
Martha se levantou e foi atender  porta. Era Sandra Grant.
	Eu tinha certeza. Sabia que ele estava com algum aqui!
Deveria ter imaginado que era voc. Bem, tentei ser sensvel e racional, mas agora chega. Chega! Quero lhe dizer umas boas verdades, antes que seja tarde. Posso entrar?
	Eu...
	Perguntei se posso entrar. Ser que no me ouviu?  Desta vez a moa no esperou pela resposta e, praticamente, invadiu o apartamento.
Martha, atordoada, fechou a porta. Sandra tinha se dirigido para a cozinha, e foi para l que Martha se dirigiu.
	Eu...  Ela olhou para a visitante e viu que estava muito plida.  Eu estava tomando ch. Voc aceita uma xcara?
	Por que no?  Sandra respondeu com desdm.  Pelo que pude observar, voc j tomou posse desse apartamento. E sabe por que eu nunca passei uma noite aqui? Porque esse local  como se fosse um templo, um santurio, dedicado a Mary.  Ela deu uma risada histrica.  Esse apartamento foi o presente de casamento que Ivete deu aos dois. E sabe por que voc est aqui? Porque existe uma semelhana muito grande entre vocs duas. No estou falando na aparncia, mas em algo internalizado. Sinto em voc uma amiga, Martha. E posso lhe afirmar com todas as letras: ele no a ama. Foi a maneira que encontrou para trazer Mary de volta.
Estava sendo muito, muito difcil para Marthaouvir aquelas palavras. Mesmo assim, tentava manter o controle. Serviu uma xcara de ch e a ofereceu  visitante inesperada.
	Se preferir usque...
	Eu prefiro. Prefiro usque, sim.
Martha pegou uma garrafa da bebida que se encontrava no armrio da cozinha. Sandra continuou a falar, mesmo antes de ser servida:
	No me arrependo de tudo que lhe contei.  a mais pura verdade. Mas para o seu prprio bem, entenda: ningum, ningum vai conseguir tomar o lugar de Mary no corao de Simon. Ele continua louco, apaixonado por ela. Mas se tem alguma pessoa que pode trazer a ele um pouco de paz, de tranquilidade, esse algum sou eu.
Martha olhou para a aliana que usava na mo esquerda. Com toda certeza,- Sandra no sabia do casamento.
	Sandra, por que no posso ser eu a pessoa que dar a Simon paz e tranquilidade?
	Acho que no entendeu nada do que eu disse. Voc nunca os viu juntos e, praticamente, acabou de conhec-lo.
	No, voc est enganada. Eu j conhecia Simon. Nos conhecemos h trs anos.
	Mas garanto que foi s por algumas semanas. E isso no conta. Alm do mais, voc o conheceu depois da morte de Mary.
	Acho que voc est enganada.  Martha finalmente entregou-lhe o copo de usque que tinha nas mos.  Ns nos conhecemos muito bem.
	Eu. posso imaginar!  Martha virou a bebida de um s gole.  O que est pretendendo? Prend-lo? Desista, menina. Desista. Ningum consegue prender Simon Macquire. Voc tentou, e d para perceber que estou diante de uma pessoa muito...muito esperta. Mas saia dessa antes que se arrependa.
	Eu no sou a pessoa que voc est pensando, Sandra.
	Como no? No acha esperteza demais se instalar no apartamento de Simon para conseguir fisg-lo?
	No  isso que est acontecendo, Sandra... Sou a mulher de Simon.
A moa voltou a rir de maneira histrica.
	Mulher de Simon. Essa  muito boa! Voc  amante dele, isso sim.
	No. Sou a mulher, a esposa dele. Ns nos casamos.
	Vocs o qu?  Sandra gritou.
	Ns nos casamos  Martha repetiu.
	Meu Deus! O que fui fazer? No deveria ter vindo, no deveria ter lhe contado tudo isso.

	No precisa se preocupar. Voc no me contou nenhuma novidade. Exceto...  Martha fez uma pausa e depois perguntou:  Em algum momento Simon disse que se casaria com voc?
	No, muito pelo contrrio.  A moa comeou a chorar. Muito pelo contrrio... Mas eu persisti, achei que um dia acabaria vencendo a resistncia dele. E at achava que estava conseguindo. A, de repente, Simon disse que queria terminar o nosso relacionamento. Mas ele tambm me disse que no era por sua causa.
	Posso assegurar que ele no mentiu para voc. A deciso de nos casarmos foi muito repentina.
	Bem, eu vou embora.  Martha se levantou e se dirigiu para a porta de sada. Depois, voltou-se e quis saber:  H quanto tempo esto casados?
	H pouco mais de uma semana.
Por volta de oito horas da noite, Simon chegou.
	Tem algum em casa?
	Oi, Simon.  Martha foi receb-lo.
	Trouxe o seu anel.  Ele entregou-lhe uma caixinha. O anel de brilhantes que Simon lhe presenteara tinha ficado largo e fora levado para um joalheiro apertar.  Experimente. Veja se ficou bom.
	Ficou muito bom  ela disse aps ter colocado o anel no dedo.  Muito obrigada.
	O que est acontecendo? Voc me parece muito preocupada.
	Recebi uma visita hoje.
	 mesmo? E quem foi?
	Sandra.
	Ah... Sandra.  Ele foi para a sala de visitas e sentou-se.
	Tive de dizer a ela que nos casamos.
	Garanto que ela lhe disse que voc est querendo dar o golpe do ba em mim.
	No, ela no disse isso.
	Ento, o que foi que ela lhe disse?
	Isso eu no vou lhe contar. Mas quero saber uma coisa por que voc sempre negou que tinha um caso com ela?
	No sei se tinha um caso com ela.
	Como no sabe?
	Minha ligao com Martha sempre foi difcil e muito atribulada.
	Mas voc se relacionava sexualmente com ela.
	Isso eu acho que no devo comentar.
	Acontece, Simon Macquire, que no estou tentando invadir a sua privacidade. S estou querendo saber um pouco mais da sua vida. E isso  muito importante para mim.
	Tudo bem: me relacionei, sim, sexualmente com Sandra.
Mas foram poucas vezes. Satisfeita?
	E ela nunca passou uma noite sequer nesse santurio que voc ainda dedica  mulher que sempre amou.
	No... Sandra no podia ter feito isso! Ela a envenenou contra mim. Esse apartamento no  nenhum santurio!
	Ento por que Sandra nunca dormiu aqui?
	Se quer mesmo saber, Sandra deve ter vindo aqui umas duas ou trs vezes. E isso  porque no gosto de pessoas andando pela minha casa. Nem mesmo na casa da Esccia. Gosto de ter o meu canto e gosto, principalmente, da minha privacidade.
	No acredito em voc.
	Se quiser duvidar, o problema no  meu. Mas estou falando a verdade. E quer fazer o favor de se sentar? No d para continuar conversando com voc a em p.
Martha sentou-se, e ele continuou:
	Acho melhor lhe contar tudo a respeito da minha relao com Sandra. Mas vou fazer isso para que no pairem dvidas sobre ns dois. Conheci Sandra h muitos anos. Ela era da turma de Mary no colegial. Eu estava no terceiro ano e as duas no primeiro. Depois disso, s fui encontr-la uns trs meses antes de Mary falecer e, depois, h um ano, quando ela comeou a prestar servios  empresa. De repente, Sandra cismou que tinha que me namorar. Eu evitei de todas as maneiras. Mas ela insistiu. Por causa dos nossos amigos em comum, comeamos a sair juntos; mas sempre em grupo. Sandra me telefonava sempre e chegou at a me mandar flores. Um dia, muito preocupado com a minha solido, com o rumo que ia dar  minha vida, me perguntei se Sandra no seria a resposta que eu estava procurando. E o que voc chama de caso durou no mximo duas semanas. Depois disso, continuamos saindo na companhia dos mesmos amigos. Mas vi que se continuasse fazendo aquilo, Sandra continuaria achando que um dia poderamos ficar juntos. E resolvi falar com ela. E fui muito franco.
	Foi nesse dia que disse a ela que a atitude que estava tomando no era por minha causa?
	Acho que foi, sim. Quando tivemos essa conversa, ela ficou muito irritada e disse que eu estava envolvido com voc. Eu neguei. Disse a ela que estava delirando. Talvez esse tenha sido o meu erro. Deveria ter dito que, de uma certa maneira, estava, sim, envolvido com voc.
	De uma certa maneira?
	: de uma certa maneira. Tudo ficava muito confuso para mim quando o assunto era Martha Winters. Afinal, eu no a conhecia direito. Tinha uma imagem totalmente falsa de voc. Deveria ter lhe contado tudo isso antes. Ser que voc me perdoa?
	No sei se tenho algo a lhe perdoar. Mas... mas quando algum me fala sobre Mary, eu me sinto muito insegura. Acho que voc nunca vai esquecer essa mulher.
Simon se levantou e se aproximou de Martha.
	Sabe que foram exatamente essas palavras que Sandra me disse? E sei o motivo que leva voc a sentir-se to insegura quando algum se refere  relao que eu tinha com Mary.
	E qual  esse motivo?
	Acontece, Martha, que eu me casei com voc e nunca disse que a amava.  essa a causa da sua insegurana.  Ele fez uma pausa e acariciou o rosto delicado.  Acontece que eu no acredito em declaraes de amor.
Martha se perguntava se aquelas palavras de Simon no eram a maneira de dizer-lhe que a amava.
Mas eu queria ouvi-lo dizendo: eu te amo, Martha. Te amo muito... Mas isso jamais ir acontecer..."
	Posso saber em que voc est pensando?
	Nada, nada de importante... Vamos jantar?
	Vamos.
Na manh seguinte, Martha recebeu uma outra visita.
	Annabel! Mas que grata surpresa! Como descobriu que eu estava aqui? Vamos, entre.
	Sempre me disseram que esse apartamento era espetacular, mas nunca imaginei que fosse tanto!  a garota comentou.
	... esse apartamento  mesmo muito bonito. Aceita um caf? Estava pensando em preparar um.
	 claro que aceito.
As duas foram para a cozinha.
	Mas me diga, Annabel, como foi que me descobriu?
	Resolvi dar uma passada no seu apartamento e Ivete me contou as novidades. A, pedi o seu endereo. Fiz mal?
	De jeito nenhum. Estou muito feliz em t-la aqui comigo.
Annabel ajudou Martha a preparar o caf e as duas ficaram conversando por um longo tempo.
	Mas deixa eu lhe contar uma coisa tima.
	O que ?  Martha ficou muito interessada.
	Estou indo para a Austrlia.
	Para a Austrlia? No me diga!
	Paul quer me apresentar para os pais dele.
	Ento a relao de vocs ficou muito sria.
	Espero...  Annabel sorriu.  Na semana passada eu apresentei Paul aos meus pais.
	E eles?
	Quem? Meus pais?
	. Eles gostaram de Paul?
	Muito. Mas esto morrendo de medo que eu acabe indo morar na Austrlia.
	E voc iria morar na Austrlia?
	Com Paul eu iria morar em qualquer lugar do planeta.
Mas d para eu entender a preocupao dos meus pais. Eles so muito agarrados aos filhos.
E Ricky? Como est ele?
	Bem, mas garanto que ficar inconsolvel quando souber do seu casamento. Eu j tinha dito ao meu irmo que voc no o amava, que deveria perder as esperanas. E alm do mais, Ricky  muito novo para pensar em casamento.
	Eu sinto muito...  Martha comentou, preocupada.
	Ricky se recupera.
	Seu irmo  uma pessoa muito boa.
	Martha, me desculpe perguntar, mas voc est vivendo algum problema srio?
	No... eu...
Martha, desde a visita de Sandra, estava se sentindo pssima. Tinha ficado um pouco reconfortada com a conversa que havia tido com Simon, mas o vazio que sentira dentro do peito continuava l: intacto.
	Acho que sei o que est acontecendo...  Annabel disse com carinho.  Existem alguns fantasmas que ainda precisam ser exorcizados... Mas tenha f, minha amiga, voc vai conseguir.
	Obrigada, Annabel.
	Tenho uma ideia: por que no aparece l em casa amanh?
Poderemos almoar juntas.
	Eu vou.
	Minha amiga, para encerrarmos esta conversa preciso lhe dizer uma coisa: existem fantasmas que s voc pode exorcizar. E isso inclui Sandra.
Antes de sair para a casa de Annabel o telefone tocou. Era Simon. Aps uma rpida conversa, ele a convidou para jantar num restaurante francs recm-inaugurado em Londres.
	Hoje?  Martha perguntou.
	Hoje. Sairemos de casa por volta das nove horas.
Martha havia desligado o telefone feliz. Simon fazia de tudo para agrad-la.
	Mas ele jamais vai dizer que me ama...
Esforando-se muito para no pensar no assunto, ela foi para a casa de Annabel. E se divertiu muito com a amiga. Depois do almoo, as duas resolveram fazer compras num shopping.
Martha voltou para casa depois das seis, tomou um banho e se preparou para o jantar. Quando Simon chegou, ela estava pronta.
	Voc est linda!  Ele deu-lhe um beijo nos lbios e foi tomar um banho.
s nove horas em ponto, os dois saam de casa.
	0 meu carro chegou da Esccia.
	O Jaguar?
	Exatamente. Picton o trouxe hoje.
	E Grace veio com ele?
	No, ela ficou em Mull.
	Que pena... Gostaria muito de rev-la.
	No faltar oportunidade.
Os dois entraram no carro e, logo depois, ganhavam as ruas de Londres.
	Mas que vestido  esse?  ele quis saber.  Adoro quando voc usa vermelho.
	Esse vestido  uma outra traiozinha que fiz a Ivete.
  mesmo?  Simon riu.
	Annabel e eu fomos a um shopping hoje e no resisti...
	Fez muito bem. E s comprou o vestido?
	No. Alm dos sapatos que estou usando, tambm comprei umas roupas ntimas muito bonitas.
	E voc tambm est usando essas roupas ntimas?
	Estou.
	Bem, ento vou desistir desse restaurante francs e voltar para casa.
	De maneira alguma!  Martha riu.  Depois voc ter tempo para conhec-las.
	Aguardarei ansioso.
Ao chegarem ao restaurante, os dois foram recebidos com muita deferncia e encaminhados at uma mesa de canto.
	Esse local  muito bonito  ela comentou encantada ao sentar-se.
	No lhe disse?
Simon fez o pedido e os dois ficaram conversando como velhos amigos. No final do jantar, quando j estavam para voltar, Martha lhe perguntou:
	E a sua viagem ao Japo? Como  que ficou?
-    Decidi mandar uma outra pessoa no meu lugar.
	Por qu?
	Porque ainda quero desfrutar de bons momentos com voc. No acho conveniente sair agora e ficar longe por tanto tempo. A menos que queira ir comigo.
	Eu gostaria muito, Simon, mas na prxima segunda-feira retornarei ao trabalho.
	Teremos outras oportunidades para viajarmos juntos ao Japo. Vou comprar vrios quimonos de seda para voc.
	Eu adoro quimonos.
Ao chegarem em casa, Martha no quis que ele a acompanhasse at o quarto.
	Por qu?  ele quis saber.
	No vou dizer.  uma surpresa.
	Certo. Eu aguardo  ele disse, desatando o n da gravata.
Martha foi para o quarto e pegou uma caixa. Ali estava a grande compra que fizera naquela tarde: uma camisola preta, longa e transparente.
Ao entrar no quarto e v-la com a camisola, Simon comentou satisfeito:
	Mas que mulher mais linda!
	Gostou?  Martha perguntou, meio inibida.
	Muito. Mas muito mesmol  Ele a abraou.  Est mais fcil?
	O que, Simon?
	Est mais fcil ser minha mulher?
	Est, sim. Muito mais fcil...
Martha sabia que todo sonho tinha um fim. E a eterna lua-de-mel que ela pensara que poderia viver tambm acabou. Foi difcil perceber que algo tinha mudado. Por causa do trabalho no ateli, parava pouco em casa e s se encontrava com Simon  noite, quando ele chegava cansado do escritrio. Mas quando j estavam em pleno outono, a situao no dava mais para ser ignorada: Simon s pensava no trabalho. A nica coisa que a deixava mais tranquila era o fato de ele nunca mais ter sado da Inglaterra. Mas isso tambm terminou. Um problema que s ele poderia resolver apareceu em Nova York, onde precisaria ficar por cinco dias. Na vspera da partida, pela manh, Martha comeou a apresentar sintomas de gripe. Como Ivete estava em Paris, Simon no pensou duas vezes pegou o telefone e ligou para Mull. No final da tarde, Grace estava no apartamento para cuidar de Martha.
Foram trs dias de febre alta. Mas quatro dias depois, Martha acordou bem melhor.
 Ainda bem que a febre passou, Martha  Grace, sentada na beirada da cama, lhe disse com carinho.  Se ela continuasse, eu ia ligar para o meu Simon l em Nova York.
Martha deu um abrao em Grace e comeou a chorar.
	Calma, minha filha... Apesar de no ter me dito nada, sei que est vivendo um momento delicado no seu casamento. Mas tudo vai dar certo...
No final da tarde, Simon telefonou de Nova York para avisar que teria de ficar mais uma semana por l. Triste, Martha mal conseguiu dormir naquela noite. No dia seguinte, ao acordar, pediu a Grace que voltasse para a Esccia.
A governanta resistiu mas, ao perceber que Martha queria ficar sozinha, acabou partindo.
Martha estava preparando o jantar quando o telefone tocou. Era Ivete, que acabara de chegar da Frana e que ficou muito preocupada ao saber que Martha estava sozinha.
	Fique l no apartamento at que Simon volte, querida.
	No, Ivete, prefiro ficar aqui. Amanh estarei no ateli bem cedo.
	Certo. Voc vai desfilar para duas clientes bastante importantes.
Martha estava se preparando para o desfile.
	Elas chegaram  Ivete disse meio apreensiva, o que no era nada comum.  Voc est pronta?
	Estou, sim.
Ao entrar na sala para mostrar a primeira roupa, Martha se deparou com uma senhora e uma moa de no mximo vinte anos.
	Vocs j se conhecem?  Ivete perguntou.
	No, acho que no...  Martha respondeu, estranhando a apreenso de Ivete, que agora era maior.
	Martha, essa  a sra. MacRee, Sarah MacRee. E essa jovem linda  ris.
	Muito prazer  Martha disse.
	Sarah  me de Mary.
Martha sentiu que ia desfalecer, mas se manteve firme e mostrou todas as roupas s clientes.
	Ouvi dizer que voc era parecida com a minha filha, mas agora sei que no tem nada a ver com ela  Sarah disse no momento em que se despedia.  No estou certa, Ivete?
	Claro... As duas so muito diferentes.
	Simon jamais faria a besteira de se casar com algum que o lembrasse o tempo todo do nico amor da vida dele.
	Com licena  Martha disse e se retirou. Ao se ver sozinha, caiu num pranto convulso.
Ivete, assim que se livrou das clientes, correu para procur-la.
	No fique desse jeito!
	E como voc quer que eu fique?
	No sei o que deu em Sarah para falar tanta besteira junta. Mas voc no pode se afetar por isso. Onde est Simon?
	Em Nova York!  Martha soluava.  Voc sabe que ele est em Nova York!
	 mesmo! Que cabea essa minha! Como fui me esquecer?
	Tenho o telefone dele em Nova York. Vou j ligar para l.
	No, voc no vai fazer isso.
	Voc no pode continuar neste estado.
	No suporto mais ser comparada com Mary. No suporto mais!
	Sarah no podia ter lhe dito tudo aquilo. Ela foi muito indelicada.
	E voc acha que ela me falou alguma novidade?  Martha se descontrolou.  No, no falou! Estou cansada de saber que Mary foi o grande amor da vida de Simon!
	Mantenha a calma, Martha.
	Estou cansada, cansada de manter a calma! Vai precisar de mim ainda hoje?
	No, mas acho que voc no deve ficar sozinha.
	Ivete, o que eu mais quero na vida  ficar sozinha!
Martha saiu do ateli e foi andar. S chegou em casa no final da tarde. Cansada, tomou um banho e foi para a cama. Mas no dormiu. Por volta das cinco horas da manha, ela se levantou e ficou na sala.
	No posso ficar aqui desse jeito.  Martha saiu de novo para
andar. Quando chegou ao ateli para trabalhar, Ivete perguntou:
	Por que no respondeu aos meus telefonemas ontem  noite?
	Ivete, me desculpe, mas no estou com vontade de conversar.
E Martha passou a manh inteira calada. Antes do meio-dia, Ivete lhe disse:
	Se quiser, no precisa voltar  tarde.
	Obrigada, Ivete.  Martha beijou o rosto da figurinista e foi embora.
"Preciso comer alguma coisa. Faz mais de vinte e quatro horas que no ponho nada na boca..."
Martha entrou num pequeno restaurante e, apesar de insistir muito, conseguiu comer pouqussimo. Depois, resolveu voltar a andar. J escurecia quando ela decidiu entrar num cinema, de onde saiu aps ter visto duas vezes o mesmo filme.
Ao chegar ao apartamento, ela levou o maior susto. Simon a aguardava e estava possesso.

CAPITULO IX

Posso saber onde voc estava?  Simon perguntou num tom muito alterado de voz.
Martha inspirou profundamente e o fitou. Ele usava um terno muito bem cortado, gravata de seda e transpirava poder. Muito poder. Onde estaria o homem que, de short e camiseta, a levara para pescar naquele lago- maravilhoso? Onde estaria o homem que por muitas vezes andava descalo como se fosse um simples mortal? O homem que estava diante de si seria incapaz de am-la com carinho, de toc-la com delicadeza. Ao perceber isso, ela sentiu raiva, muita raiva.
	Eu lhe fiz uma pergunta, Martha! Onde voc estava?
	No tenho que lhe dar satisfao dos meus atos!
	Ser que daria para repetir o que acabou de faiar?
	No tenho que lhe dar satisfao dos meus atos!
	Isso  muito engraado!  Ele comeou a andar de um lado para o outro.  No estou pedindo que me d satisfao dos seus atos. S estou querendo saber onde estava.
	Onde eu poderia estar?  Ela ergueu a cabea em desafio.
	No sei. E  exatamente por isso que estou perguntando.
	O que queria que eu fizesse, sr. Macquire? Que ficasse 
aqui trancada nesse apartamento esperando a sua volta enquanto se divertia em Nova York?
	No, eu no queria que ficasse aqui dentro me esperando. Ele a encarou.
	Ento, pare de me censurar.
	No acabei o que estava dizendo: no queria que ficasse aqui dentro me esperando, mas cheguei depois do almoo e no tinha a menor ideia de onde encontr-la. Voc  minha esposa e no gostei nada disso.
	O que est querendo dizer com isso, Simon? Que no confia em mim?
	Ser que eu deveria desconfiar de voc, Martha?  ele ironizou.  Pelo jeito, estou vendo que sim.
	No admito! No admito que desconfie de mim!
	No  uma questo de admitir ou no. Depois que recebi o telefonema de Ivete, telefonei para c inmeras vezes.
	Ivete telefonou para voc?
	Telefonou.
	Ela no deveria ter feito isso.
	Eu acho que deveria, sim. S no voltei antes porque os voos estavam todos lotados. Ivete me disse que voc ficou muito mal depois de ter conhecido a me de Mary. Mas vejo que no est to mal assim. Vamos, me diga: onde voc esteve? Com Ricky?
	Ah... ento  isso... Voc acha que eu estava com Ricky...
	No fale dessa maneira comigo, Martha!  O tom dele era ameaador.  E me diga logo onde esteve!
	No, eu no vou lhe dizer nada. E voc no pode me obrigar.
	Isso ns veremos.  Simon a segurou pelos ombros.  Quero que saiba, mocinha, que quando eu no estiver mais satisfeito com o nosso casamento, eu a avisarei. Por enquanto, ser tudo como antes.
	Me solte!
	No, u no vou solt-la.
	No pode me forar a nada  Martha disse ao perceber quais eram as intenes dele.
	No, no vou for-la a nada. S estou querendo saber se Ricky a faz se sentir to bem quanto eu...  Ele a abraou.
	Simon...  Martha disse baixinho.  No  justo...
	Claro que  justo. J no ouviu falar que no amor e na guerra vale tudo?
Simon a beijou e, como por encanto, a raiva que Martha estava sentindo desapareceu. No primeiro instante, ela ainda tentou lutar contra o desejo, mas depois viu que era impossvel resistir.
Simon a levou para o quarto e os dois se amaram desesperadamente.
Mais tarde, quando Martha repousava nos braos fortes, Simon disse:
	Fique a descansando... Preciso dar um telefonema urgente.
Martha fechou os olhos e no foi capaz de conter as lgrimas.
Nas duas semanas que se seguiram, os dois se comportaram como se nada tivesse acontecido. Mas existia um grande distanciamento entre eles. Martha sabia que, para acabar com aquela situao, deveria lhe dizer que no via Ricky h muito tempo. Mas, ao mesmo tempo, se negava a fazer isso. Simon tinha que confiar nela. Ela vivia se perguntando como Simon pudera largar tudo em Nova York s para ver o que estava acontecendo em Londres. E por que, de repente, sentira tanto cime? Logo ele que era to seguro, senhor de todas as situaes, no poderia ter se comportado daquele jeito. Outra pergunta que sempre se fazia era por que Simon parecia disposto a manter aquele casamento. Afinal, ele estava acreditando que fora trado. Por mais que tentasse, Martha no encontrava respostas para essas perguntas.
Deitada na cama, Martha agora se perguntava:
	E eu? Por que continuo casada com ele? Por amor? Ou porque sou uma grande tola? ... talvez porque, de uma maneira ou de outra, eu sinto que esse  o meu lar. Mas esta situao no vai durar muito tempo. Essa madrugada Simon dormiu no escritrio e, quando saiu, no veio nem me desejar um bom dia.
Martha se levantou e foi para o trabalho. Ao passar numa banca de jornais, viu na capa de uma revista uma das fotos dela tirada na Esccia. Mas no ficou contente com aquilo.
Ao chegar ao ateli, Ivete a aguardava com a revista nas mos.
	Voc ficou fantstica, Martha.
	Acha mesmo, Ivete?
	E ainda pergunta, garota? Tenho certeza que daqui para frente comearo a chover propostas de trabalho do mundo inteiro. Mas voc no me parece muito animada. 
	E no. estou mesmo.
Ivete se calou e voltou ao trabalho.
Os dias passavam e a relao entre Martha e Simon s piorava. Uma noite ele chegou e lhe disse que teria que viajar para a Frana, onde ficaria por quinze dias.
	Acho melhor voc ir para o apartamento l na casa da Ivete  ele sugeriu.
	Eu vou, sim, mas para pegar o resto das minhas coisas que deixei por l.
	No quero que fique tanto tempo sozinha.
	Por qu?  ela o desafiara.  Est com medo que eu volte a tra-lo?
Simon tinha sado de casa batendo a porta com fora e no voltado mais.
Martha, arrependida pela provocao gratuita que havia feito, chorara a madrugada toda.
Pela manh, um funcionrio de Simon tinha ido ao apartamento pegar a mala para a viagem. Martha arrumara as roupas e, desde aquele dia, no ouvira mais falar em Simon Macquire. Nem Ivete tocava no nome do sobrinho.
Numa tarde de muita tristeza, Martha andava pelas ruas de Londres sozinha. De repente viu que estava sendo seguida por um cachorrinho.
	Voc est perdido, querido?  Ela se abaixou e acariciou a cabea do animal, que logo comeou a lamber-lhe a mo.  Eu tambm estou perdida e no tenho a menor ideia do que fazer da minha vida... = Martha se levantou.  Tchau, cachorrinho. Foi um prazer conhec-lo.
Mas o animal no parecia disposto a desistir da sua nova amiga. Martha entrou num cinema e, duas horas depois, quando saiu, o cachorrinho continuava em frente ao cinema.
	O que foi? Resolveu me adotar?  Mais uma vez ela se abaixou e acariciou a cabea do animal e no teve coragem de abandon-lo. Passou numa lanchonete, pediu que o dono lhe fritasse um hambrguer.
	E o po?  o homem perguntou.  A senhorita no vai querer o po?
	No. S o hambrguer, por favor. E para o meu amiguinho que est me esperando l fora.
O dono da lanchonete no disse mais nada e, depois de fritar o hambrguer, o embrulhou e entregou a Martha.
O cachorrinho, quando a viu abrindo a porta, comeou a abanar o rabo e praticamente devorou o alimento.
	Coitado... que fome...
Martha voltou  lanchonete, comprou um copo d'gua e o segurou perto da boca do cachorro.
	No vai me agradecer?  ela perguntou ao perceber que ele j estava saciado.
O cachorro latiu.
	De nada, sempre s ordens  Martha deu uma risada e se assustou com o prprio riso. H muito tempo no ria daquele jeito.
	Vem, cachorrinho, vou lev-lo para a minha casa e lhe dar um belo banho. Depois eu vejo se encontro o seu dono. Voc  muito bonito. Deve ter uma criana desesperada por sua causa. Enquanto no descubro o seu nome verdadeiro, vou cham-lo de Sam. Certo?
Ao chegar em casa, Martha fez  que. havia prometido. Primeiro deu um banho no animal, depois secou-lhe os plos e, em seguida, voltou a aliment-lo.
Nos dias que se seguiram, ela fez de tudo para encontrar o dono do cachorrinho e no conseguiu.
	Acho que a gente se adotou mesmo, Sam. Mesmo assim vou continuar tentando.
Certa noite, Martha estava lendo na sala, com Sarna seus ps. De repente, latindo muito, o cachorrinho saiu correndo.
	O que foi, Sam?  Martha deixou o livro de lado e foi ver o que estava acontecendo. Sam agora rosnava. A cena que viu em seguida fez com que tivesse muita vontade de rir. Segurando com firmeza a barra da cala de Simon, Sam tentava assustar o inimigo.
	Me solte, cachorro!  Simon gritava.  Mas que diabos est acontecendo aqui?
	Sam!  Martha gritou.  Pare com isso! Simon mora aqui nesta casa! Solte a cala dele.
Mas Sam no demonstrou o menor interesse em soltar sua presa. Martha precisou se abaixar e, s depois de alguns segundos, o cachorrinho a obedeceu.
	Como essa fera veio parar aqui dentro?  Simon per guntou irritado.
	Essa fera me seguiu um dia pela rua.
	E voc o adotou? Deve ter gente procurando por ele. J fiz de tudo para encontrar o dono e no consegui.
	De tudo mesmo?
	Cheguei at a ligar para um programa de televiso que  transmitido ao vivo. Um programa de auditrio. Nada. Ningum o procurou. Se o dono no aparecer, posso ficar com ele?
	Pelo jeito voc se apaixonou pelo... Sam...
	... Eu gosto muito dele.
	Mas esse cachorro no pode ficar aqui, Martha. Ele me odeia.
	No, ele ainda no o conhece. Tente fazer amizade com ele e tudo vai dar certo.
	Amizade? Veja o jeito com que ele continua me olhando.
	Sam est assustado, s isso.
	Tudo bem: se gosta tanto assim desse animal, pode ficar com ele.
	Obrigada, Simon...
	Uma semana depois, antes de sair para o trabalho, Simon disse a Martha:
	Temos um jantar de gala hoje. Esteja pronta s sete e meia.
	O qu?
	Temos um jantar muito importante hoje. Se no tiver uma roupa adequada, fale com Ivete.
	E por que no me disse antes?
	Eu me esqueci. Acabei de falar com minha secretria pelo celular e ela me lembrou.
	E voc acha que eu vou a um jantar com voc como se fssemos um casal?
	Mas ns somos um casal.
	No  o que parece. Desde que chegou da Frana, voc no dorme no meu quarto e mal me dirige a palavra.
	E voc no parece estar se importando nem um pouco com isso.
	Voc queria o qu? Que eu me atirasse a seus ps?
	At que no seria uma m ideia  ele ironizou.
Apesar da ironia, Martha no se sentiu ofendida com aquelas palavras.
	No podemos continuar nos agredindo desta maneira, Simon.
	No, no podemos. Mas outra hora a gente conversa sobre esse assunto. Agora estou com pressa.  Ele foi embora sem dizer mais nada.
	Viu s, Sam? Viu s em que se tornou a minha vida? Martha abraou o cachorrinho.
As sete horas, Martha estava pronta, usando um vestido longo, criado por Ivete. Logo depois Simon chegou com um smoking num cabide e correu para o banheiro. Exatamente s sete e trinta ele apareceu na sala.
	Vamos?
Sem dizer nada, Martha pegou a bolsa e os dois rumaram para a festa. Ela jamais tinha visto na vida tanto luxo, tanta ostentao. Os dois s voltaram para o apartamento de madrugada.
	Quero conversar com voc  ela disse.
	No  melhor deixarmos essa conversa para outra hora?Estou cansado e...
	Tambm estou muito cansada, mas quero conversar com voc agora.
- Tudo bem. Vamos para a cozinha. Quero tomar um copo d'gua.
Martha o seguiu e sentou-se  mesa. Simon tomou a gua e sentou-se em frente a ela.
	Tudo bem. O que voc quer me dizer? Que vai me abandonar?
Martha no esperava por aquilo.
	No, no estou pretendendo abandon-lo, Simon. Estou querendo entender o que est acontecendo conosco. No existe mais casamento entre ns dois. E minha vida se tornou insuportvel.
	E a minha? Acha que minha vida est muito agradvel? 
Sinto muito lhe dizer, mas no sou responsvel pelo que est nos acontecendo. Voc sempre soube onde me encontrar.
	Voc est se referindo ao dia em que chegou de Nova York, no est?
	E voc ainda tem alguma dvida?
	Tinha prometido a mim mesma que no lhe diria nada sobre o que eu fiz naquele dia, mas vou quebrar a minha promessa.
	Estou esperando.
	Naquele dia, depois que sai do ateli, fiquei andando pelas ruas desesperada. Depois de andar por horas, resolvi entrar num cinema e assisti o mesmo filme duas vezes. Ao sair, voltei a p para o apartamento.
	E Ricky? Ele estava com voc?
	Simon, por favor, no continue com essa histria. No vejo Ricky h muito tempo. E, se quer saber, nunca tive nada com ele.
	Mas ele  apaixonado por voc.
	, ele  apaixonado por mim. Mas, quanto a isso, no posso fazer nada. O que aconteceu naquele dia foi o que acabei de lhe contar. Se o cinema no tivesse encerrado as suas atividades, acho que ficaria l dentro por mais tempo.
	O filme era to bom assim?
	E voc acha que eu consegui prestar ateno ao filme? Para mim bastou ficar olhando as imagens desfilando na minha frente. Eu queria sumir, no pensar em nada. Bem, agora voc decide se confia ou no em mim. Jamais eu o trairia com outro homem. 
Simon a fitou e em seguida abaixou o olhar. E um silncio pesado caiu entre os dois.
	... voc tem razo, no existe mais casamento entre a gente.
	E voc fala assim, com essa tranquilidade toda?
	No estou tranquilo, muito pelo contrrio.
	Voc acha que eu menti sobre o dia em que voc chegou de Nova York. Mas eu no menti.  Ela enxugou as lgrimas que comearam a escorrer-lhe pelo rosto.  J sei... o problema  outro: eu jamais conseguirei substituir a mulher que voc tem no corao.
	No  nada disso. Sei que nunca poderei gostar de voc do jeito que merece. E no gosto dos sentimentos que voc me desperta.
	No estou entendendo aonde voc quer chegar, Simon.
	Martha, eu quase enlouqueci de cime quando imaginei que estivesse nos braos de outro homem. E eu nunca, eu disse nunca, senti cime em toda a minha vida. Voc  bonita demais e sei que Ricky, ou qualquer outro homem sobre a face da Terra, daria tudo para ter um caso com voc. Viu s o que aconteceu hoje na festa?
	O que aconteceu hoje na festa?
	Todos ficaram deslumbrados por voc.
	E o que quer que eu faa? Que fique trancada dentro de casa s para voc no sentir cime?
	No exagere.
	 voc quem est exagerando, Simon. No acho que hoje na festa eu fiz tanto sucesso assim.
	No se faa de ingnua, Martha.
	Eu no estou me fazendo de ingnua. Se quer saber, me senti muito mal naquela festa.
	Por qu?
	Acha que  fcil ficar o tempo todo sendo comparada com Mary? No, no  fcil.
	Ningum a estava comparando com Mary, estavam admirando a sua beleza.
	No. Todos me comparam a Mary. E voc tambm.
	No, eu no a comparo com Mary. Acontece que os meus sentimentos ficaram represados. Me sinto sem esperana, sem perspectivas, acho que perdi a f na vida. No a comparo com Mary, mas no posso negar que a perda dela foi terrvel para mim. Tenho a sensao de que no posso me ligar a mais ningum no mundo.
	No estou entendendo...
	Andei pensando muito a esse respeito e cheguei  concluso que, inconscientemente, me armei contra qualquer tipo de sentimento mais profundo. E isso acontece desde que eu me conheo por gente. Eu gostava de Mary. Gostava, sim. Mas isso no me impediu de uma semana antes do nosso casamento pedir que ela fosse me ver na Esccia. E sabe para qu? Para romper o meu compromisso com ela.
	O que est me dizendo?
	E isso que voc acabou de ouvir. No me sentia capaz de unir a minha vida  de ningum. Lembro que Mary, depois de conversar comigo, pegou a mala e saiu de casa furiosa dizendo que iria, sim, me casar com ela. A aconteceu o acidente.
	No, voc no pode estar se culpando por uma fatalidade.
	No quero mais falar sobre esse assunto.  Ele fez meno de se levantar.
	Por favor, no me exclua da sua vida emocional. Eu me preocupo com voc, Simon. Sei que me comporto s vezes de maneira inadequada, sei que sou uma cabea-dura, mas eu amo voc!
	Pare, pare de pensar que no  adequada para mim, eu a amo exatamente do jeito que .
Martha se assustou com o que acabara de ouvir.
	O que foi?
	No precisa mentir para mim, Simon. No depois de tudo o que me disse.  Ela se levantou.  Acho que nossa conversa acabou.
	Sente-se, por favor. Acho melhor lhe contar tudo de uma vez por todas.
	Ainda tem mais?
	Tem, tem sim.
	Depois da morte de Mary eu fiquei muito mal. Todos achavam que era por causa da paixo que eu sentia por ela. Mas no era s paixo. Era culpa tambm. Me sentia culpado pela morte dela. A, um ano depois, um pouco antes de eu ir para a Austrlia, fui procurado por uma pessoa que me contou algumas coisas nas quais eu no quis acreditar.
	E que coisas foram essas?
	No... acho melhor no falar nesse assunto.
- Simon, no faa isso comigo! Se no me contar exatamente o que aconteceu, eu saio desta casa e voc nunca mais vai me ver. Ele deu um profundo suspiro e disse:
	Tudo bem... Eu vou lhe contar... Essa pessoa me assegurou que Mary, durante o tempo em que esteve comigo, tinha um amante. O rapaz, um nobre que perdeu toda a fortuna, estava atolado em dvidas. 
	Est querendo dizer que ela estava a fim de se casar com voc apenas por dinheiro?
	Foi o que eu pude deduzir.
	E essa histria de Mary ter um amante era verdadeira?
	Infelizmente, sim. Mandei um especialista checar tudo e ele me confirmou.
	Meu Deus...
	A eu fui para a Austrlia e a conheci naquela circunstncia terrvel. A emoo que voc me despertou, Martha, foi muito forte. Mas eu no queria, no podia me envolver. Ainda mais com uma mulher pela qual voc fazia se passar... Quando voltei para a Europa, tive muita vontade de lhe escrever, mas me contive. No podia confiar nas mulheres. No podia confiar numa desconhecida que fazia questo de ganhar a vida de uma maneira com a qual eu no concordo. A, fiz de tudo para esquec-la. E achei que estivesse conseguindo quando, sem mais nem menos, voc reapareceu na minha vida. No imagina como fiquei confuso. No imagina como, at hoje, estou confuso. Voc foi a primeira mulher com quem realmente eu quis me casar. Voc foi a primeira mulher com quem eu quis constituir uma famlia. E eu a amo, sim. Eu a amo de maneira total, de uma maneira assustadora. Tenho muito medo de perd-la e por isso acabei fazendo de sua vida um inferno. Martha se levantou.
	Onde  que voc vai?
	Vou lhe dar um abrao.  Martha o puxou com carinho e o abraou.  Repita.
   O qu?
	Repita que me ama.
	Eu te amo, Martha. Te amo de corao...
	Era isso que eu queria ouvir.
Martha o levou para o quarto. Agora, sim, ela sentia-se casada com Simon, agora ela sentia que pertencia quela casa.

FIM
